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sexta-feira, 1 de agosto de 2025

Terras e Tramas do Itanhangá

Terras e Tramas do Itanhangá


Por Leonardo Santos

Prof. de História, UFF/Campos

Pesquisador do IHBAJA

 

Quem quer que procurasse notícias sobre a Barra da Tijuca e Itanhangá entre a segunda metade dos anos 1930 e por toda a década de 1940, daria de cara com alguma notícia sobre algum evento celebrado no Itanhangá Golf Club. Fosse um jantar, almoço ou festa, ou uma competição de golfe, era certa a presença nele de “muitas pessoas de relevo na sociedade carioca” – como gostavam de frisar os jornais da época.

O lançamento da pedra fundamental do Itanhangá Golf Club contou com a presença de Getúlio Vargas. Ele considerava o clube o seu favorito para a prática do golfe. Na solenidade citada, ocorrida em 1936, além do “opíparo churrasco” servido aos convivas, o que chama atenção é a presença de altos oficiais das forças armadas, embaixadores, vereadores e membros destacados da burguesia carioca. Eram figuras que com seu prestígio contribuíam para fortalecer a posição do clube como espaço de afirmação do poder da elite carioca (A Nação, 18/09/1936, p. 10).



O Itanhangá Golf Club era o favorito de Vargas para a prática do golfe. Era assíduo frequentador. Quase um garoto-propaganda informal da entidade. Fonte: A Noite, 22/04/1941, p. 6.


Porém, essa áurea de poder e ostentação sofreria sério abalo alguns anos depois. Acontecimentos associados ao clube apareceriam em manchetes situadas não nas colunas sociais, mas nas páginas que retratavam questões policiais.

 “Lesado numa compra de terrenos o presidente do Itanhangá Golf Club”. Com essa manchete o Gazeta de Notícias publicava uma matéria que dava conta da queixa-crime apresentada por Antonio Ferraz ao delegado Dulcídio Gonçalves, da 1ª Delegacia Auxiliar. Segundo aquele, o cidadão Gustavo de Carvalho vendeu a ele um terreno cuja planta indicava como sendo de dimensão de 4 mil metros quadrados, recebendo por ele a quantia de 4 mil contos. Ferraz queria com isso garantir terras para implantar os campos de golfe de seu clube.

Contudo, “ao entrar na posse das terras”, o senhor Ferraz teve a desagradável constatação de que as terras que efetivamente adquiriu mediam apenas 1.327.000 metros, “faltando portando 2.673.000” (Gazeta de Notícias, 10/05/1939, p. 9).

Um dia antes, a reportagem do jornal A Noite era mais incisiva e detalhada. Sem nenhuma cerimônia já tacharia Carvalho de “estelionatário”, que teria usado “de um meio hábil para iludir os compradores de tais terrenos”. O jornal afirmava que tudo que havia sido declarado na transação sobre o terreno “era fantástico, ou melhor, os terrenos existiam, mas pertenciam a terceiros”.

A venda teria sido consumada em 16 de maio de 1933. A Noite acrescentava detalhes ausentes em outros jornais. Segundo ela, Carvalho dizia ser de sua propriedade “três milhões e cento e vinte e sete mil metros quadrados”, e para chegar a 4 mil (que foi o que foi vendido), ele se obrigava a “elevar essa área com a aquisição de outras na sua vizinhança a quatro milhões de metros quadrados (Ele prometeu vender terras que no ato da transação ainda não era dele? Como assim?).

Ainda segundo jornal, a proposta foi aceita por Ferraz, representando o Itanhangá Golf Club, por “oitocentos contos de réis, pelos quatro milhões de metros”.

Outro detalhe importantíssimo: a matéria detalhava os supostos limites da propriedade.

Os terrenos estavam situados entre a Lagoa do Camorim, o rio Cachoeira, a Pedra de Itanhangá e as vertentes da Serra da Taquara, sítios conhecidos sob a denominação de Picapau, Qubra-Cangalhas e Pequeno, compreendendo extensa área que vai desde o alto da Tijuca até Jacarepaguá.

 

Porém, a diferença entre a real extensão do terreno e que havia sido declarado de “má fé” por Gustavo de Carvalho era enorme. O que configurava, no dizer do A Noite, o “crime de estelionato”. Além disso, outro detalhe que complicava ainda mais a situação de Carvalho: ele “mandara há tempos, antes de efetuar a venda, levantar uma planta daqueles terrenos, planta essa que foi levantada pelo Dr. Gastão de Carvalho”. Em tal planta, seria indicado a existência “de um milhão e poucos metros” sob propriedade efetiva por Carvalho. Daí, continua o jornal, que “para melhor iludir os compradores, Gustavo não lhes mostrou nunca essa planta, apresentando entretanto uma outra, que demarcava os terrenos dentro de quatro milhões” (A Noite, 09/05/1939, p. 1).

Dois dias depois das primeiras publicações sobre o escândalo, Gustavo Carvalho apresentaria a sua versão da história. O jornal Diário de Notícias seria um dos jornais que publicaria a sua carta. Mas não sem antes publicar uma nota tentando desfazer a confusão que o público estava fazendo com o nome de Gustavo de Carvalho, que estava sendo associado a outro Gustavo de Carvalho (Gustavo Adolpho de Carvalho”, presidente do C.R. do Flamengo, e, declara José Brigido – o autor da nota, “pessoa de reconhecida honorabilidade” homônimo.

Feito o esclarecimento, a edição de 11 de maio publicaria a carta de Carvalho, na qual o missivista começaria negando o crime de estelionato. alegava que a transação fora feita “com a maior lisura e boa fé”. Sustentava que a queixa havia sido apresentada unicamente por Ferraz, de maneira individual, sem qualquer anuência do Itanhangá Golf Club.

Um dos pontos mais sensíveis da sua argumentação reside no fato, alegado por ele, de que a negociação se deu com base em “escripturas de promessa de compra e venda” que Carvalho teria lavrado com proprietário de sítios (Quebra-Cangalhas, Pequeno, Pica-Páo e Itanhangá), cujas compras não tinham sido efetivadas, mas que, ao mesmo tempo, havia o compromisso que de que dentro de “um prazo bastante longo” as escrituras definitivas seriam lavradas – e tudo isso com o conhecimento  dos diretores da “entidade sportiva”, segundo ele. O “club”, prossegue, sabia que ele “não possuía ainda todo o numerário suficiente para a transacção”, assim como eles estariam informados que “alguns terrenos se achavam, em parte, invadidos por vizinhos e intrusos”.

No meio da transação, os diretores do clube teriam proposto “a rescisão da promessa de compra e venda que haviam feito commigo”. Segundo Carvalho, tais diretores teriam decidido que seria melhor que o “Club” tratasse diretamente com os proprietários dos sítios para adquiri-los. Diante disso, Carvalho teria rescindido as promessas de compra e venda que tinha com estes proprietários. Que eles se acertassem entre si; “Sahia eu, assim, do negócio”. E insistia que os “diretores” tinham conhecimento de tudo:

Para essas transacções, “todos os títulos de propriedade foram entregues aos ilustres advogados do club, os quais emitiram previamente parecer sobre a perfeita regularidade dos mesmos”.

 

Carvalho reconhecia assim que nem todas as terras eram de sua propriedade, mas justificava a suposta existência de promessas de venda de alguns sítios para incluí-los no conjunto vendido ao clube. Terrenos comprados e terrenos a serem comprados, na sua lógica, podiam todos serem incluídos na planta que ele apresentou junto ao anúncio da venda.

Ao sair do negócio, o clube que se virasse para efetivar aquelas promessas – esse era o raciocínio de Carvalho. Inclusive a demarcação. Seria de responsabilidade daquele também.

Ora, nada se alega contra a autenticidade desses títulos. Existe, portanto, por eles, a área de 4.000.000 de metros quadrados, vendida ao “Itanhangá Golf Club”. Si ela se encontra, em parte, invadida por vizinhos ou intrusos, não me cabe a culpa. Ao “Itanhangá”, com a rescisão da promessa de compra e venda que comigo fizera, ficou o encargo de demarcar as áreas que adquirira diretamente dos proprietários.

 

Com o passar das semanas, o imbróglio foi perdendo interesse. Mas ele revelou problemas que se ampliariam pelas décadas seguintes. Um deles tinha a ver com a brutal valorização imobiliária da região, de maneira um tanto desordenada, que ia atraindo cada vez mais a cobiça de inúmeros agentes, muitos deles ricos. E o que era mais grave: toda essa expansão estava se realizando numa região onde pairava enorme dúvidas sobre a titularidade daquelas terras. Dúvidas que não eram novas. Já havia vários debates na imprensa e nos legislativos municipal e federal sobre suspeitas de grilagem de terras envolvendo o Banco de Crédito Móvel na Barra da Tijuca e Jacarepaguá desde pelo menos fins do século XIX. E esse não era um caso único. Em várias partes da zona rural da cidade pipocavam disputas de terras que onde os dois lados da contenda juravam ter o título de propriedade verdadeiro do lugar. Ou seja, alguém ali estava mentindo. Pelo menos um deles estava querendo se apropriar ilegalmente de uma parcela que não teria direito. Mas a questão podia ser mais grave: era possível que nenhum dos dois pudesse ter razão. Podia se tratar de uma tentativa de ambos de açambarcar terras que poderia pertencem ao poder público ou a um terceiro ente privado. Nenhuma hipótese podia ser descartada, pois a regularização fundiária da região era quase letra morta. Valia ali a lei do mais forte.

Mas tudo passou a se complicar ainda mais quando as terras das grandes fazendas da região foram sendo retalhadas entre as últimas décadas do XIX e primeiras do XX. E com a avultada valorização delas, mais e mais agentes querendo lucrar com o loteamento daquelas terras foram se interessando pela região.

Foi nesse contexto que o Itanhangá Gold Club foi ali instalado. Além da sua fixação ali ser indicativo da valorização imobiliária, há que destacar que ele simbolizava um plano mais abrangente de direcionar a expansão urbana e imobiliária da região (em especial Barra da Tijuca, Itanhangá e Jacarepaguá) em favor das classes média e alta da sociedade carioca.

É bastante sugestivo que no relato sobre o lançamento da pedra fundamental do clube, ocorrido em 13 de setembro de 1936, e que contou com a presença do então presidente da República Getúlio Vargas, o autor destacasse a presença de “elevado numero de senhoras e senhoritas da nossa melhor sociedade” (A Noite, 14/09/1936).

Ao mesmo tempo, se a inauguração do clube era representativa da expansão imobiliária da região, o estabelecimento do Itanhangá ali agia decisivamente como fator impulsionador da valorização do lugar. Se ele só foi construído ali porque os poderes públicos construíram estradas como a do Joá, Furnas e do Alto da Boa Vista, que permitiam aos ricaços da cidade e suas famílias acessassem o Itanhangá Golf Club. E que também só foi possível porque o Governo Federal tenha realizado uma série de obras de saneamento daquela região da Baixada de Jacarepaguá por meio do DNOS, tornando-o saneado e salubre. Foi por conta também do Itanhangá Golf Club que muitos agentes do mercado imobiliário carioca passaram a pensar naquela região como uma oportunidade verdadeiramente auspiciosa de investimento. Foi a partir exatamente dos anos 40 que grandes loteamentos passaram a ser lançados naquele ponto do território da Baixada de Jacarepaguá. E emblemático que os anúncios destacassem a proximidade em relação ao clube.

 


Fonte: Diário de Notícias, 25/12/19, 2ª Seção, p. 7.



Fonte: Correio da Manhã, 4/11/1949, p. 7. 


Fonte: Correio da Manhã, 14/031954, 3º Caderno, Parte 1, p. 16


Muito mais curioso é que as próprias obras governamentais buscavam justificar a sua importância se respaldando na existência do Itanhangá Golf na região.

A reportagem publicada pelo Radical em 1942 é bastante simbólica dessa perspectiva. Em texto evidentemente laudatório – que mais parecia uma peça de propaganda imobiliária – sobre “as obras admiráveis de nossa capital”, que enriqueciam a cidade, onde não havia “nada que a faça paralisar no seu ritmo de progresso, silencioso e dinâmico”, o autor destacava como uma das principais obras a “pavimentação de um grande trecho, que vai justamente do Alto da Boa Vista até a estrada da Barra, contornando o Joá e passando ao lado do Itanhangá Golf Club, fazendo entroncamento com a Estrada do Pica-Pau, que vai sair em Jacarepaguá” (O Radical, 30/06/1942, p. 5).  

O autor da “reportagem” associava tais obras a um plano do governo em promover um plano de expansão da ocupação da Baixada de Jacarepaguá (que fazia parte do então chamado Sertão Carioca, zona rural da cidade do Rio). Num trecho sobre as potencialidades dessa intervenção, vemos destacado a intervenção a partir do Alto da Boa Vista rumo a Jacarepaguá e Barra da Tijuca:

Pára e contempla a maravilha da Natureza no derrame de tantas paisagens encantadoras. Observa no entanto que o homem procurou dela aproximar-se fazendo no que lhe competia obra digna. É que se sente em cada sinuosidade aberta, em cada curva fechada, em cada refugio, canteiro, pérgolas, jardins, a mão do artífice, o fino gosto do traçado e dos detalhes numa grandiosa avenida – a Avenida Tijuca. Percorremo-la.

E ela, pela sua categoria, uma estrada de montanha, de acesso comodo e desenvolvimento adequado para ganhar altura, inscrita habilmente nos acidentes topográficos sem quebrar a beleza natural do ambiente.

Sobre o ponto de vista de sua utilidade, vemo-la como uma super-estrada para circulação rápida de veículos, dotada de condições técnica excelentes, grande visibilidade, raios de curva e rampas máximas admissíveis pelas mais recentes especificações rodoviárias mundiais em vigor.

Por excelência ela se torna uma estrada de turismo como raríssimas, cruzando e dominando cenários e panoramas deslumbrantes e maravilhosos.

 

Contudo, a questão que se impunha – e que a imprensa em grande medida ignorava – era de se saber para quem esses “panoramas deslumbrantes” e essas “paisagens encantadoras” estavam sendo minuciosamente esquadrinhados e incorporados ao sistema urbano da cidade?

Para a população pobre e trabalhadora é que não estava sendo feito tudo isso.

Mais de um ano depois, matéria do Gazeta de Notícias (25/12/1943, p. 4) seguia explorando o Itanhangá como forma de enaltecer obras que eram do governo para a região. Mais do que isso, o teor do texto (na verdade, peça de propaganda) deixava claro que mais do que vias de comunicação, o governo faria o máximo para dotar a região dos melhores serviços urbanos possíveis:

A estrada Pica-Pau-Muzema, fazendo ligação entre Itanhangá Golf Club e a Avenida Geremário Dantas, é uma realização que trouxe grandes benefícios às populações servidas por aquela importante via de comunicação. Contando 13 quilômetros de extensão, nos quais tem a largura de 6,50 ms., a sua pavimentação é das mais modernas. As sargetas(sic) para escoamento das águas pluviais teem(sic) 0,50 ms, e a faixa pavimentada a macadame betuminoso, depois de toda concluída terá 72.000 ms², dos quais já estão concluídos mais de 35.000 ms².  

Em toda a extensão da estrada foram reconstruídos quatro pontilhões em sentido transversal, sendo três de 3 metros cada um e um de 5 metros de vão. Também foram reconstruídas totalmente duas muralhas situadas às margens da lagoa de Jacarepaguá, uma com a extensão de 432 metros por 1,50 de altura e outra medindo 164 metros.

 

O terreno das obras era minuciosamente preparado. Não para receber loteamentos populares ou melhorar a vida da gente humilde que ali já morava há décadas. A Barra da Tijuca e a área circundante (aí incluído o bairro do Itanhangá) estava sendo pensada para receber a instalação de “hotéis, cassinos, balneários e palacetes”, como clamava a revista Beira-Mar em 1927.

Este era o caráter das obras planejadas para a região. Numa imagem muita utilizada pelos setores da imprensa que apoiavam vivamente os interesses do mercado imobiliário, a expansão urbana que começa a ganhar vulto nessa parte do Sertão Carioca a partir dos anos 1940 será frequentemente associada a uma versão carioca da “Marcha para o Oeste”, implementada desde os tempos do Governo Getúlio Vargas. Só que no caso carioca, o progresso era pensado incorporando aspectos estéticos e paisagísticos, daí que a região também fosse vista para fins turísticos também: “O aproveitamento de seus recursos naturaes cedo o transformaria em o ‘Eldorado Carioca’!” (Beira-Mar, 15/11/1927, p. 17)

Associado a essas intervenções urbanísticas havia o claro propósito de favorecer a ocupação do território, e o consequente usufruto dos serviços e estruturas urbanas instaladas, em favor dos grupos sociais de maior poder aquisitivo da cidade.

Contudo, por mais que plano para Itanhangá e Barra da Tijuca fosse aquele, a realidade foi apresentando uma trilha bem mais tortuosa, pontilhada ainda por várias encruzilhadas. Se os ricaços com o beneplácito dos poderes públicos tinham um projeto para a região, havia outros grupos com distintos planos e vivências. É  o que  mostrarão as disputas e tensões que vão se acirrar a partir dos anos 1950.


  

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quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

A História da ocupação de Gardênia Azul (Parte III)

  A História da ocupação de Gardênia Azul (Parte III)

Leonardo Soares dos santos

Professor de História/UFF

Pesquisador do IHBAJA e do IAP


 Contudo, se a linha adotada pelo governo Lacerda junto às favelas localizadas na zona sul era muito coerente com as estratégias políticas por ele elaboradas, como pensar a questão específica de Gardênia Azul? Como o governo podia lidar com os crescentes problemas da população em termos de precariedade das condições de habitação? Ela não era caracterizada como uma favela passível de ser removida, principalmente por não estar localizada numa área considerada “nobre”. Ao contrário, visto em si, o projeto de ocupação de Gardênia Azul era um exemplo animador para os objetivos de Carlos Lacerda, que esperava urbanizar o quanto antes a Baixada de Jacarepaguá, plano que ele tinha em mente desde os anos 1940, quando era vereador. Tratava-se no fundo de um bairro que contribuiria para a afirmação do caráter crescentemente urbano da região. Daí que a remoção não fosse algo cogitado. A fixação daqueles moradores na localidade era sim o que interessava. Mas, ao mesmo tempo, faltava quase tudo: água, luz, telefone, transporte, esgoto, escolas, postos de saúde.


Carlos Lacerda. Fonte:https://www.camara.leg.br/deputados/130732/biografia.



Mas havia um outro complicador: oficialmente, o loteamento Gardênia Azul era um empreendimento privado, cuja melhoria urbana era de responsabilidade pelo responsável por aquele projeto, o Sr. José Padilha. Portanto não era fácil que os poderes públicos assumissem as tarefas de urbanização da localidade. Isso ficou nítido um ano antes, pois mesmo o governo produzindo um relatório bastante negativo sobre o loteamento, ficava impossibilitado de tomar medidas mais efetivas, já que se tratava de uma área de propriedade particular.

Porém, como vimos nos acontecimentos de 1963, com a ocupação de terras em Urussanga, boa parte dos moradores buscava construir algumas alternativas a esse impasse. Naquele ano, a estratégia consistiu em ocupar terras, pressionando seja o governo federal (de João Goulart) ou o governo Estadual (de Carlos Lacerda) a desapropriar a área. No entanto, a repressão foi intensa, impossibilitando a realização daquele objetivo.

Após esse insucesso, outra alternativa passou a ganhar o horizonte: a possibilidade de desapropriação da própria área de Gardênia Azul. Para isso, era fundamental que se comprovasse que o antigo proprietário não tenha cumprido com o prometido no ato da venda dos lotes. Significativo que alguns movimentos tenham sido realizados nesse sentido. De fundamental importância foi a pressão desses moradores junto às autoridades públicas por meio de denúncias crescentes sobre as péssimas condições de moradia do lugar.

O contexto político pós-golpe tornava tudo mais difícil. Muitas das desapropriações efetuadas pelo governo João Goulart foram anuladas, por exemplo. A desapropriação de terras para fins de reforma agrária acabou se tornando um símbolo da esquerda subversiva e radicalizada – esse foi o discurso difundido pelos setores conservadores que contribuíram para a vitória do movimento golpista que instaurou o regime militar no país. Contudo, o fechamento do regime não foi capaz de paralisar o segmento mobilizado e organizado dos moradores de Gardênia Azul. Mesmo com toda a dificuldade imposta pela nova e dura conjuntura política, eles e elas seguiram exercendo pressão sobre as autoridades políticas da cidade. Em outubro de 1964, “o deputado estadual Rossini Lopes encaminhou requerimento à CPI que apura irregularidades nos loteamentos, encarecendo investigar a respeito da venda de lotes no bairro “Gardênia Azul’, em Jacarepaguá, de propriedade do sr. José Nunes Padilha Coimbra (Diário de Notícias, 13/10/1964, p. 3).”

A insistência das denúncias sobre a precariedade do local e as irregularidades do loteamento tinham todo o sentido. Em que pese o contexto político mais amplo, o interesse pela desapropriação podia ser facilmente acolhido pela administração Carlos Lacerda. Mesmo porque, a desapropriação em questão aqui não era aquela voltada para reforma agrária, mas para o assentamento de população urbana na periferia da cidade. Cabe relembrar que o instituto da desapropriação fazia parte da política habitacional do governo estadual no tocante às favelas, pois era o que viabilizava áreas destinadas para sediar conjuntos habitacionais voltados para as populações transferidas daquelas. Assim, com esse objetivo, o governo promoveu a desapropriação de áreas para a instalação de Vila Kennedy (Senador Camará), Vila Aliança (Bangu), Cidade Alta (Cordovil), Vila Nova Holanda (Ramos) e Cidade de Deus (Jacarepaguá). Segundo ainda Rose Compans, o governo Carlos Lacerda construiu ao todo 10 conjuntos habitacionais, perfazendo um total de 8.869 unidades habitacionais neles distribuídos (COMPANS, 2011, p. 5). E, ainda segundo a autora, três desses conjuntos - Vila Kennedy, Vila Aliança e Vila Esperança – acabaram abrigando “moradores de 32 favelas parcial ou totalmente erradicadas” (Idem).

E o mais relevante para a situação dos moradores de Gardênia Azul: o governo parecia disposto a efetuar a desapropriação de áreas já ocupadas, desde que não estivesse localizada na zona sul, para a fixação de população de baixa renda e, quem sabe, atrair moradores de favelas extintas.

A reportagem do Diário de Notícias do início de 1964, ainda antes do Golpe Militar, é ilustrativa. Com o sugestivo título “Desapropriações para exterminar favelas cariocas” o jornal destacava o plano do governo estadual para “construir, ainda este ano, seis mil casas populares numa área de 700 mil metros quadrados da rua Edgar Werneck, em Jacarepaguá”. As “autoridades estaduais” estariam ainda examinando “a desapropriação de mais duas áreas de terras para a instalação de novos núcleos residenciais, frisando que, quando este programa estiver concluído, o Rio não terá mais favelas nem cariocas vivendo em condições precárias” (04/02/1964, p. 7). Demonstrando apoio irrestrito aos objetivos do plano do governo, o texto ainda sublinhava que “tanto quanto possível”, o executivo procurava “deslocar parte da superpopulação da zona sul para as regiões pouco habitadas”, por meio dos conjuntos residenciais (Idem).

Mas se na zona sul o governo procurava expulsar as populações das favelas, na zona rural e subúrbios a ênfase era exatamente oposta. A administração Lacerda não hesitaria em fazer uso de instrumentos urbanísticos para fixar tais populações na região. Daí que o jornal assim explique o papel das desapropriações na “solução” do “problema” das favelas

O Plano de Urbanização [do governo Carlos Lacerda] começou há pouco mais de dois anos. Durante esse período, o governo construiu casas e transferiu favelas. Por outro lado, atento à “ganância” de proprietários de terras, a atual administração intervém sempre que se torna necessário evitar o despejo de centenas de pessoas (Idem).

 

A matéria finalizava mencionando um exemplo que tinha muitas semelhanças com o caso de Gardênia Azul. Tratava-se da Mangueira, “onde, por decreto, foi feita a desapropriação de toda a área, transformando-a de utilidade pública”. O que demonstrava a inclinação do governo Carlos Lacerda em utilizar a desapropriação como uma saída política para determinados conflitos, e em benefício dos moradores – desde que não habitassem na zona sul. O caso da Mangueira indicava também que a desapropriação, seguida de uma política de urbanização poderia ser benéfica para o capital ligado ao setor da construção civil. Nesse sentido, a reportagem acrescentava que na “Mangueira, a primeira etapa do plano de urbanização está pronta, [...] já tem rua calçada, esgoto e água. Agora esta sendo estudado um programa de loteamento de toda a área para construção de casas de alvenaria” (Idem).  

Não parece sem sentido pensar que Carlos Lacerda visse a desapropriação de Gardênia Azul com bons olhos. É possível que ele passasse a ver a localidade como mais uma área a receber moradores despejados de favelas erradicadas na zona sul.

Outro ponto que não pode ser negligenciado no debate sobre essa conjuntura dos anos 1964 e 1965, a parte final do governo Carlos Lacerda, é o grande desgaste que este sofreu pela radicalidade e violência da sua política remocionistaGonçalves lembra ainda que até mesmo as agências financiadoras da política habitacional lacerdista teceriam críticas a sua estratégia de remoção violenta.

Mas é também possível que a desapropriação visada por Lacerda pudesse ser ruim também para os seus humildes moradores. É possível que o governador tivesse planos de expulsar todos dali. E essa possibilidade não era infundada. 

E isso passou a assombrar os moradores de Gardênia Azul nos primeiros meses de 1965.



Continua......

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