como criar um site

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Pedro Coutinho em Jacarepaguá (Parte II)


Por Leonardo Soares dos Santos

  

Pedro Coutinho em Jacarepaguá

Pedro Coutinho trabalhou, profissionalmente falando, por muito tempo em Jacarepaguá. Ele chegou a fazer parte dos trabalhos de saneamento levados a cabo na Baixada de mesmo nome durante a administração de Hildebrando de Góis, fator que talvez tenha pesado na decisão (dele ou do partido) de escolher o Sertão Carioca como área de atuação, muito embora não tenha se restringido a ela. Justamente o que mais nos chama atenção na sua trajetória é a diversidade de campanhas e organizações comunistas em que tomou parte (e ás vezes a frente) em diferentes regiões. Além de Jacarepaguá, atuava também em Nova Iguaçu e no subúrbio da Leopoldina (Zona Norte). Integrou quase que de forma simultânea as seguintes organizações: na década de 40 fez parte do Comitê Distrital de Jacarepaguá, Comitê Democrático Progressista de Jacarepaguá, Comissão de ajuda à Tribuna Popular (órgão do PCB), Liga Camponesa de Jacarepaguá, Liga Camponesa do Distrito Federal, Comitê Democrático Progressista de Nova Iguaçu. Na década de 50 integrou o Centro Nacional de Estudos e Defesa do Petróleo (CEPDEN), Comissão Executiva Pró-Reforma Agrária, a Liga de Emancipação Nacional e a Associação Rural de Jacarepaguá. Em função disso, Pedro Coutinho esteve na linha de frente de Campanhas como as da nacionalização do petróleo, da Reforma Agrária, da Imprensa Popular e pela defesa da posse da terra dos pequenos lavradores do Sertão Carioca. Além de membro, ele exercia cargos de direção em algumas daquelas organizações. Foi o primeiro presidente do Comitê Democrático Progressista de Jacarepaguá,[1] fundado em junho de 1945, e posteriormente fez parte do seu Conselho Fiscal e da Secretaria de Massa Eleitoral, chegando a se tornar seu presidente de honra. Foi também presidente da Liga Camponesa de Jacarepaguá e membro da diretoria da Liga Camponesa do Distrito Federal.[2]

 


Retomada da atuação de Pedro em Jacarepaguá. Fonte: Tribuna Popular, 16/02/1945, p. 4.

 

 

 

Segundo o agente da polícia política encarregado da produção de seu dossiê, essa ampla inserção de Pedro Coutinho em diferentes campanhas e organizações comunistas e, principalmente, a posição de direção que exercia em várias delas se daria pelo fato de estar “estreitamente ligado ao líder e chefes comunistas no país”, tanto assim que foi “um dos organizadores e oradores de vários comícios do líder LUIZ CARLOS PRESTES e outros chefes comunistas”, como o professor Henrique Miranda.[3] Exagero ou não, o fato é que Pedro Coutinho parecia usufruir boa relação com homens bem situados na estrutura partidária do PCB, pois além de ocupar posições de direção daquelas entidades locais era também um dos dirigentes do CEPDEN, organismo de âmbito nacional que se ocupava de uma das principais frentes de luta do partido na década de 50, o da nacionalização do petróleo, que tinha como lema “O Petróleo é nosso”. No final de outubro de 1951, era ele quem presidia a “conferência sobre Petróleo e defesa da Economia Nacional” realizada em Grajaú.[4] Pedro ainda organizaria vários eventos dessa campanha em localidades do Sertão Carioca, como Cascadura, Campo Grande e Jacarepaguá. Ele, dessa maneira, procurava incluir a zona rural no cenário dos debates políticos: o Sertão Carioca era também lugar de debate e politização.

 


“Cícero”, o segundo da esquerda para a direita, em evento do Comitê Democrático Progressista de Jacarepaguá. Fonte: Tribuna Popular, 6/6/1945, p. 5.

 

Mas foi no exercício da função de advogado das entidades sediadas em Jacarepaguá que Pedro Coutinho deve ter despertado o mais efetivo interesse por parte dos pequenos lavradores. É provável também que muitos deles tenham se filiado àquelas entidades justamente por poder contar com serviços jurídicos, tendo para isso apenas que pagar uma módica quantia cobrada a todos os seus sócios. Ao menos, essa era a expectativa de muitos sócios da Liga Camponesa de Jacarepaguá, na década de 40, e da Associação Rural de Jacarepaguá, nas décadas de 50 e 60. E em todas elas Coutinho foi o seu advogado. Ele também foi advogado da Associação de Lavradores de Campo Grande e Guaratiba, onde tinha entre seus clientes Manoel Ferreira, objeto de uma ação movida pelo “grileiro” Joaquim Rodrigues Pazo.[5] Foi também um dos procuradores, junto com Heitor Rocha Faria, da comissão do Distrito Federal da I Convenção Nacional dos Trabalhadores Agrícolas, realizada em São Paulo em 1953, eleita para participar dos trabalhos da Convenção Pela Emancipação Nacional, no ano seguinte.

Mas há um outro ponto importantíssimo presente na atuação de Pedro Coutinho (e na dos militantes comunistas de uma maneira geral): a inserção que tinha na estrutura partidária, possibilitou-lhe, entre outras coisas, atuar em diferentes campanhas e integrar a direção de diferentes organizações, favorecendo a realização de um objetivo que era muito caro ao PCB numa época de grande competição política com os setores ligados ao trabalhismo de Getúlio Vargas, especialmente o PTB: a unificação ou, ao menos, a integração desses movimentos numa frente comum de luta, de modo que isso fortalecesse a imagem do PCB como o principal partido das classes trabalhadoras.[6] Nesse caso, ela poderia se dar sob a forma de manifestações de apoio, solidariedade e mesmo de adesão, entre membros de diferentes lutas ou campanhas.

Assim vemos Pedro, por exemplo, participar de atos em favor da liberdade de Luiz Carlos Prestes e da extinção de todos os processos judiciais contra ele, como o ato público na Associação Brasileira de Imprensa, reunindo vários militantes do partido que atuavam nas forças armadas (O Dia, 24/07/1953, p. 1).

Esse talvez tenha sido o principal capital político que Pedro Coutinho tentou obter junto aos lavradores organizados naquelas entidades, procurando, a todo momento, fazer com que eles encampassem as bandeiras de outras campanhas do partido e, em contrapartida, fazer com que essas campanhas tomassem como suas as reivindicações dos pequenos lavradores do Sertão Carioca. Essa parece ter sido a sua grande tarefa ao participar como convidado especial da assembleia organizada por posseiros de Curicica em comemoração a uma vitória que obtiveram contra “grileiros” na justiça. Nela Coutinho teria conseguido a adesão desses posseiros à Convenção pela Emancipação Nacional, chegando a eleger para tanto uma comissão encarregada de acompanhar os trabalhos preparatórios desse evento. Mas não sem antes assegurar a eles que “nenhuma questão de importância para a vida do país escapará à discussão e à análise” da Convenção. “Assim, os problemas mais sentidos dos Lavradores, inclusive os de Curicica, serão ventilados”.[7]

 


Pedro Coutinho Filho com alguns lavradores de Jacarepaguá na redação do Imprensa Popular de 26/04/1958. Fonte: Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro, 1587, fl.03.

 

 

Dois anos depois vemos Coutinho tentar unificar a pauta do movimento dos lavradores do Sertão Carioca com outros movimentos, e consequentemente obter seu apoio. Foi o caso da reunião, por ele presidida, da Comissão Executiva do Distrito Federal Pró-Reforma Agrária, na sede da Liga da Emancipação Nacional. Nessa reunião ele conseguiu reunir dois deputados, algumas lideranças sindicais como Lyndolpho Silva, representantes do Sindicato dos Têxteis e representantes das Associações de Lavradores de Jacarepaguá e de Coqueiros. As medidas discutidas foram a coleta de assinaturas pela Reforma Agrária, cuja cota determinada foi de 320 mil, e a colaboração da Comissão ao II Congresso de Lavradores do Distrito Federal.[8]

Em outubro de 1955, às vésperas das eleições presidenciais daquele ano, o jornal comunista Imprensa Popular, demonstrando ter certeza de que Pedro Coutinho tivesse sua atuação reconhecida pela grande maioria dos lavradores do Sertão Carioca, chamou-o de “líder camponês”. Foi nesta condição que ele conclamou “seus companheiros de profissão [os “camponeses” cariocas] a votar em J-J” (chapa presidencial composta por Juscelino Kubitschek e João Goulart). Só “com êles”, continuava Coutinho, “teremos o clima desejável para que consigamos vencer os grileiros, a distribuição de terras aos lavradores, títulos definitivos das terras já cultivadas pelos posseiros, revisão dos contratos e fixação à terra, concessão de crédito fácil”, etc.

 

As estratégias de atuação do advogado dos “camponeses cariocas”

 

Além de se ater aos aspectos técnicos das demandas judiciais dos pequenos lavradores, Pedro Coutinho sempre procurou fortalecer tais iniciativas investindo na frente política. Para que isso fosse possível ele sempre teve muito claro que era necessário unificar o discurso dos pequenos lavradores. Daí que todos orientados por ele declarassem ter ocupado os terrenos em litígio há várias décadas (geralmente de três a quatro, nunca menos que isso), estando tais terras no ato da ocupação completamente abandonadas. Ou seja, tratavam-se de terras devolutas que teriam sido ocupadas de maneira legal, não simplesmente invadidas, e de forma inteiramente “mansa e pacífica”. Detalhe importantíssimo, pois que, a) fundamentava o acionamento da Lei de Usucapião, que assegurava a posse de um terreno abandonado por mais de duas décadas; b) e o fato garantia que os pequenos lavradores reivindicassem a condição de posseiros, categoria legitimada pelo Código Civil, ao contrário da categoria invasor.

Outro aspecto ressaltado na argumentação dos posseiros, sob orientação de Coutinho, é a da violência empregada pelos pretensos proprietários para promover a expulsão daqueles lavradores, o que fundamentaria a intervenção por parte do governo para garantir os direitos e a integridade física daqueles posseiros.

Mas Pedro Coutinho sabia que não bastava concretizar essa unificação apenas no âmbito das alegações contidas nos autos dos processos judiciais. Ele sabia que seria necessário um amplo trabalho político de convencimento da opinião pública carioca. Daí que despendesse tanto tempo para às várias redações de jornais, geralmente acompanhado por uma espécie de comissão de pequenos lavradores. Essas “visitas” eram feitas não apenas ao órgão de imprensa comunista, o Imprensa Popular, mas também àqueles de orientação política ou ideológica divergente, como Última Hora, A Noite, Correio da Manhã, Gazeta de Notícias e Diário de Notícias.

 

Antonio Caseiro na visita da comissão do Sindicato Rural de Jacarepaguá é o segundo da esquerda para a direita. Fonte: Última Hora, 26/04/1955, p. 8.

 

 

Outro aspecto relevante da trajetória de Pedro, em especial como advogado comunista com atuação na zona rural, era o seu papel de mediador entre as linhas políticas do PCB e as demandas reais dos pequenos lavradores de Jacarepaguá. A maneira como tal mediação era operada nos mostra como a atuação dos militantes do partido junto a “base social” não era uma iniciativa simples: não estamos diante de um quadro partidário buscando construir mecanicamente a adesão de agentes concretos às linhas políticas impressas nos documentos oficiais do seu partido. Ao analisarmos tal situação observamos o quanto essas experiências engendradas no âmbito da relação do partido com segmentos sociais efetivamente existentes no dia-a-dia - da fábrica, do sindicato, da associação, do bairro, da feira, da rua, da roça ou da fazenda – confirmam a tese de Marco Aurélio Santana sobre a existência de dois “PCs”: o dos debates e relações internas e o da articulação com agentes sociais efetivos.

Assim o autor sintetiza a questão:

[...] se buscou instrumentalizar o movimento dos trabalhadores no sentido dos interesses partidários, o PCB não logrou fazer isso da forma que queria. Este processo sofreu injunções, desvios e alterações oriundos seja da resistência interna, seja das pressões externas experimentadas pela organização. A implantação das linhas políticas definidas pelo partido não se deu, portanto, de forma lisa e direta; antes, se realizou de forma negociada e perpassada por uma série de condicionantes tais como: o cenário político geral e o quadro de alianças e competição travadas pelo partido dentro e fora do meio sindical, bem como as resistências estabelecidas pelos trabalhadores e/ou pela própria militância comunistas, que chegou a gerar, na prática, a existência do que se chamou dois PCs.[9]

 

E a trajetória de Pedro junto aos pequenos lavradores do Sertão Carioca, em especial os de Jacarepaguá, vai exatamente nesse sentido: embora entre 1948 e 1954 o PCB defendesse em seus documentos, editoriais em imprensa e manifesto, a linha política insurrecional, na zona rural carioca a linha adotada pelo advogado pecebista foi a da linha institucional. Ou seja, no mesmo período em que o PCB consagrava no Manifesto de Agosto de 50 a proposta de tomada do poder do Estado via mobilização armada de “Exércitos de Libertação Nacional” e a renúncia à disputa política junto às instituições e sindicatos, o seu quadro mais importante instava os pequenos lavradores do Sertão Carioca a se organizarem em associações de classe reconhecidas pelo Estado, a apelarem aos tribunais de justiça o cumprimento de leis que garantissem seus direitos pela terra. E esse era um ponto bem curioso da situação vivenciada por Coutinho, um advogado de um partido que pregava a luta armada entre os camponeses do país: ao fundamentar a sua principal estratégia jurídica na lei do usucapião, o seu maior desafio era instruir pequenos lavradores a convencer os juízes de que sua posse sobre as terras estava se dando de forma “mansa e pacífica”, totalmente dentro da lei.

 

* * *

 

A partir de meados da década de 50 até o mais ou menos 1963, não veríamos Pedro Coutinho desempenhar atuação de destaque em eventos públicos organizados por entidades do PCB com a mesma frequência de antes. Seu trabalho parece ter se concentrado na prestação de assistência jurídica às “organizações camponesas” do Sertão Carioca. Sabe-se apenas que Coutinho integrou em 1961 uma Comissão Brasileira de Solidariedade ao Povo Cubano, organizada provavelmente após os acontecimentos ocorridos na Baía dos Porcos envolvendo grupos cubanos dissidentes apoiados pelos EUA.[10]

Ele voltaria a se destacar em alguns eventos “camponeses” ocorridos em 1963. Em maio desse ano Coutinho integraria junto com Antônio Caseiro, Teobaldo José Ribeiro, Manoel Rodrigues e Manoel Agapito - presidentes respectivamente das Associações Rurais de Jacarepaguá, Santíssimo, Guaratiba e Mendanha – e outras personalidades, a “comissão promotora” da II Conferência dos Lavradores da Guanabara.[11] Meses depois, em novembro, ele também teria “liderado” uma “concentração” de lavradores em frente a Assembléia Legislativa do Estado da Guanabara. O objetivo, segundo ele, era lembrar aos parlamentares que “a gravidade da situação alimentar da população do Estado é, em parte, conseqüência do abandono e miséria em que se encontra o lavrador carioca, sem terra própria, sem auxílio técnico e financeiro, sem mercadoria garantida para os seus transportes e, ainda perseguido pelos exploradores imobiliários e pelos grileiros”.[12]

 

Pedro (o primeiro da esquerda para a direita) em evento em Jacarepaguá organizado pelo PCB em apoio a candidatura do Marechal Lott (o terceiro). Entre eles, Antonio Caseiro, pequeno lavrador e militante do PCB que atuava em Jacarepaguá. Fonte: O Semanário, 20-26/08/1960, p. 1.

 

Fazia-se mister que tais parlamentares tomassem não só medidas de urgência, mas principalmente “modificações estruturais” no campo, pois só elas – e isso valia para o restante do país - poderiam fazer com que os lavradores do Sertão Carioca deixassem de ser um “peso morto”.

A atuação de Pedro Coutinho junto às “organizações camponesas” foram suficientes para que aqueles que, segundo a “grande” imprensa, “salvaram” o país do “risco da comunização” com o golpe de 64,[13] incluísse-lo na lista de indiciados do Inquérito Policial Militar nº 709, chefiado pelo general Ferdinando de Carvalho, e que tinha por tarefa apurar a responsabilidade de reais e supostos participantes da “onda de agitação e subversão” que pretendia varrer os valores democráticos e cristãos do país. Aliás, Pedro Coutinho era o único de todos esses indiciados que tinha como base de atuação o Sertão Carioca.[14]

Nos poucos registros sobre Pedro após o Golpe de 64, atestamos apenas que estava preso em 1965. Em nove de julho desse ano sairia a expedição de soltura.

Acusado de ser ainda um agente subversivo, e temendo sofrer com a tortura e ser executado, Pedro procurava se desvencilhar de sua ligação histórica com o PCB. Em depoimento que prestou em 1965 ao DOPS (polícia política), ao ser perguntado se fez parte alguma vez de uma “agremiação política”, Pedro declararia que fez parte apenas do Partido Social Democrático no Ceará, em 1930. Negaria também ter participado, mesmo em Jacarepaguá, de qualquer associação, entidade, campanha ou movimento patrocinado pelo PCB. Única exceção seria reconhecer ter presidido o Comitê Democrático Progressista de Jacarepaguá, mas afirmaria também que se tratava de uma “entidade apolítica e apartidária”.

A partir do final da década de 60, já idoso e diante de um cenário tão repressivo parece ter concentrado a sua atuação na Associação Brasileira de Imprensa, fazendo parte sucessivas vezes do corpo dirigente, assumindo cargos como tesoureiro, diretor de sede e conselheiro fiscal, e chegando a sua presidência no início da década de seguinte.

Pedro veio a falecer no Rio de Janeiro no início de 1986, aos 84 anos.

Pedro em evento com militares na sede da Associação Brasileira de Imprensa. Fonte: Boletim da ABI, julho de 1970, p. 3.


[1] Tribuna Popular, 05/06/1945. p. 2.

[2] Tribuna Popular, 21/05/1946. p. 2

[3] APERJ. Fundo DOPS.  Série Informações, n. 34: “memorando nº 69/62”.

[4] Imprensa Popular, 01/11/1951. p. 4.

[5] Novos Rumos, 18-24/12/1959. p. 11.

[6] Podemos dizer que o PTB foi o grande adversário do PCB no interior do movimento sindical em particular, e no âmbito das esquerdas em geral, de l945 a 1955. O suicídio de Vargas e a comoção nacional por ele causado farão com que os comunistas comecem a se aproximar dos trabalhistas. Em 1955 essa aproximação é oficializada com a criação do MNTP – Movimento Nacional Popular Trabalhista, que procurava ser na prática uma base de apoio da chapa presidencial encabeçada por J. Kubitschek e João Goulart. Nos anos subseqüentes tal aproximação resultaria ela mesma numa progressiva indiferenciação entre as linhas políticas dos dois partidos.

[7]  Imprensa Popular, 18/12/1953. p. 3.

[8] Imprensa Popular, 16/02/1955. p. 1.

[9] SANTANA, Marco Aurélio. Homens partidos. São Paulo: Boitempo, 2001. p. 21.

[10] APERJ. Fundo DOPS. Série DOPS – 85.

[11] Diário Carioca, 25/05/1963. p. 4.

[12] Diário de Notícias, 12/11/1963. p. 12.

[13] O Globo, 02/04/1964. p. 1.

[14] APERJ. Fundo DOPS. Série Secretaria, n. 10. Se Pedro Coutinho foi o único a ser oficialmente indiciado, vários outros foram perseguidos pelos órgãos de repressão, casos de Antônio Ferreira Caseiro, Eros Martins Teixeira, Aristides e outros. No depoimento dado ao autor, Eros Martins declara que Aristides foi torturado por ter dado “fuga” a Antônio Caseiro. Uma parente deste, D. Alice (nome fictício), também declara que chegou a ser agredida pelos agentes do DOPS que estavam à procura de A. Caseiro.

Continue lendo →

domingo, 19 de julho de 2020


A trajetória militante de Pedro Coutinho Filho
(Parte I)


Leonardo Soares dos Santos

Professor de História
Universidade Federal Fluminense
Instituto de História da Baixada de Jacarepaguá


O Partido Comunista do Brasil nascido em 1922 foi sem dúvida a agremiação política mais marcante da história contemporânea brasileira, pelo menos até a redemocratização iniciada em fins da década de 70. Uma massa expressiva de informações e um vasto conjunto de reflexões a respeito dessa história foram sendo elaboradas desde as primeiras décadas da sua existência – por meio de memórias, relatórios e documentos oficiais – foram enormemente engrossados por pesquisas que passaram a ser realizadas no âmbito de programas universitários brasileiros de graduação e pós-graduação a partir dos anos 1980 e 1990. Antigas ideias e conceitos cristalizados sobre a evolução do partido e sua atuação no cenário político passaram a ser incisivamente problematizadas. Questões como a relação do partido com a democracia, a ideia de Revolução, a Questão Agrária, tudo foi sendo objeto de severo crivo analítico.
Mas curiosamente algumas questões ainda seguem pouco esclarecidas. Embora a historiografia do PCB tenha produzido considerável material sobre alguns de seus principais militantes,[1] os “dirigentes mais destacados” – sobre os quais já havia significativo acervo de memórias e biografias[2] -, pouca atenção foi dada até hoje àqueles militantes menos notórios, seja por não terem ocupado as instâncias mais elevadas da hierarquia partidária seja por terem militado a partir de pontos geográficos mais distantes dos grandes centros políticos (subúrbios, periferia, meio rural, pequenas cidades).
Esses militantes ainda pouco lembrados foram extremamente relevantes para a expansão organizacional do partido nos bairros mais distantes dos centros e nas pequenas cidades e localidades rurais. Sem eles o PCB provavelmente teria ficado circunscrito às áreas centrais onde predominavam as classes médias urbanas.
Um desses militantes foi Pedro Coutinho, militante comunista, nascido no Ceará em 1901, que começou sua trajetória como seguidor de Padre Cícero em Juazeiro e que depois se tornaria o principal quadro do PCB na zona rural da cidade do Rio de Janeiro. Reconstituir essa trajetória de Pedro implica em lançar luz sobre essa também pouca estudada questão, a atuação do PCB em áreas suburbanas e rurais das grandes cidades.
Mesmo a atuação de Pedro tendo sido expressiva na área rural do Rio - o chamado Sertão Carioca - ela deixou poucas marcas na memória social da região. A história construída por esse e outros militantes acabou sendo soterrada por décadas de esquecimento e desprezo consciente sobre esse passado. A exclusão desses personagens da memória local não foi nada casual.
De todos os militantes que atuaram foi de longe o que mais mereceu a atenção dos órgãos de informação da polícia política, do “farto dossier” (sic) produzido sobre ele é que colhemos boa parte das informações que aqui apresentamos.[3] Pedro Coutinho nasceu em 10 de junho de 1901. Exerceria as profissões de professor, engenheiro civil, jornalista e advogado. Ingressou no PCB em 1935, mas só começou o trabalho como militante dois anos depois, possivelmente foi nesse momento que recebeu o codinome “Cícero”. Certamente um codinome que fazia uma irreverente alusão a sua origem cearense e, principalmente, ao fato de ter sido seguidor e correligionário do célebre Padre Cícero. Por sua atuação como comunista esteve preso de 13 de janeiro a 12 de julho de 1937, e de 3 de dezembro de 1937 a 4 de junho de 1938, por ter sido condenado pelo Tribunal de Segurança Nacional à pena de 1 ano de “prisão celular”. Por suas “atividades comunistas” esteve novamente preso entre 25 de março de 1940 a 29 de agosto de 1940.
Mas Pedro Coutinho não era um iniciante da militância política quando foi capturado pela polícia em Jacarepaguá, no momento em que procurava reorganizar as células do PCB na localidade. Muito pelo contrário: Coutinho já tinha trilhado uma substantiva trajetória em seu estado natal, o Ceará. Mas, curiosamente, o combativo militante comunista se iniciou nas lides políticas bem longe dos marcos do “movimento vermelho”.
Ele começou a se notabilizar por ter uma atuação bem próxima ao padre Cícero, o “patriarca de Juazeiro”, da qual Coutinho também era “afilhado” (O Combate, 24/01/1935, p. 2). Nesse período nem mesmo Pedro era capaz de imaginar que em poucos anos ele viria a se tornar um destacado quadro comunista. Ele fazia questão de destacar numa das suas várias entrevistas ao jornal cearense O Combate, que não escondia a sua repulsa por “doutrinas extremistas, dissolventes” (Idem).
A partir de 1929 passaria e viver no Rio de Janeiro, onde se tornou professor da Escola de Direito e Colégio Pedro II (A Noite, 14/10/1930, p. 5). Desde então militava também no Sindicato dos Professores Secundários, não apenas fazendo parte do corpo diretor, mas contribuindo diretamente para a sua criação (Diário de Notícias, 28/04/1931, p. 7).
Mesmo no Rio, Coutinho mantinha ligações com Juazeiro. Junto com o jornalista Nóbrega da Cunha, ele organizaria uma “exposição juazeirense”, tendo como convidado especial Getúlio Vargas e que começou no dia 22 de junho de 1934, e tinha como objetivo divulgar as “artes e indústrias” da cidade cearense (Diário Carioca, 20/06/1934, p. 2). Além de representante de Juazeiro em terras cariocas, Pedro atuava também como porta-voz principal de Padre Cícero na capital da República.
Em meados da década de 1930, Pedro se tornaria correligionário de coronel Felipe Moreira Lima, interventor do estado do Ceará, ligado ao Governo Vargas (O Combate, 24/12/1934, p. 1). Ele volta ao Ceará em 1934, disposto a concorrer a uma vaga de deputado federal pelo Partido Social Democrático, com o apoio da Liga Católica (O Radical, 19/10/1934, p.2).
Assim o jornal cearense O Radical apresentava a sua candidatura:
Engenheiro, professor e jornalista, Pedro Coutinho Filho não é apenas essa inteligência curiosa, avida de abranger os mais vastos e complexos conhecimentos humanos.
Elle personifica, também, um trabalhador incansável e um moço a quem o septicismo da nossa época não embota o sentimento patriótico.
O que elle tem conseguido elle tem conseguido no Rio, em benefício do Ceará e em reivindicação do renome do seu povo, e que melhor se concretisou na Exposição Joazeirense aqui por elle promovida, há mezes, vale bem a compensação que agora lhe offerecerá o eleitorado cearense, enviando-o, como seu mandatario, ao Congresso Nacional. Ninguém melhor do que elle póde exhibir credenciaes de sincero interprete dos sentimentos e das aspirações do povo do Ceará (O Radical, 11/10/1934, p. 2).

Nesse tempo, Pedro passaria a ter grande atuação na região do Cariri. Cumpre destacar que nessa época, o grande adversário do grupo do interventor cel. Lima – do qual Pedro fazia parte – era o grupo de Menezes Pimentel, fortemente apoiado por setores católicos do estado.


Foto do então jovem seguidor de Padre Cícero. Fonte:
O Radical, 11 de outubro de 1934, p. 8.

Pedro Coutinho foi peça importante para a eleição do cel. Lima, nas eleições para governador de 1935.  Ele atuaria exatamente para amealhar votos em Juazeiro e Cariri. E como préstimo do seu engajamento foi nomeado Diretor da Escola para Menores Abandonados e Delinquentes, em Santo Antonio de Pitaguarí em 24 de abril de 1935.  (O Combate, 03/05/1935, p. 3)

Pedro em evento cultural no Rio. Sentado, o terceiro da esquerda para a direita. Fonte: Fon Fon, 30 de novembro de 1929, p. 10.

* * *

Pedro já tinha, portanto, atuação política em sua terra natal, Juazeiro do Norte. Era muito próximo do maior nome da política da cidade e do Ceará, o Padre Cícero.[4] Ele provavelmente se encontrava no estado quando rebentou o Levante Comunista de 1935. Pelas informações que pude levantar a seu respeito, não é possível dizer se ele já fazia parte do PCB.
Tal lacuna sobre sua trajetória, por isso mesmo, torna mais intrigante ainda o fato de reencontrarmos já em 1937 o nome de Pedro Coutinho envolto numa espetaculosa “trama macabra comunista” em plena zona rural da cidade do Rio de Janeiro. Pedro havia ganho notoriedade – claramente negativa – como agente do PCB e membro ativo da também proscrita Aliança Nacional Libertadora (ANL)[5], com a foto de seu rosto estampado em vários jornais de grande circulação do Rio, São Paulo e Minas Gerais. E bem antes da imprensa, toda a polícia política já tinha acumulado robusta informação sobre a sua pessoa e seus respectivos passos.
Assim, em 14 de outubro de 1937 era preso em Itanhandú/MG, enquadrado pelo tribunal de segurança nacional por ações envolvendo a reorganização do PCB e da Aliança Nacional Libertadora em Jacarepaguá, bairro da zona rural carioca.
Sua prisão foi assim noticiada – e festejada – pelo O Imparcial:
A polícia mineira acaba de deitar mãos em um perigoso communista. Trata-se de um extremista envolvido no[s] sangrentos e covardes acontecimentos de novembro de 1935 e que se achava refugiado no interior do Estado.
Há dias, o sr. Orlando Moretzohn, delegado de Ordem Pública, após uma série de investigações, conseguiu localizar, homisiado na cidade de Andrelândia, o perigoso communista Pedro Coutinho Filho, que estava sendo procurado pela polícia do Rio. O delegado de Ordem Pública officiou, então, ao delegado de Andrelandia, pedindo a prisão do elemento vermelho. Immediatamente, a policia de Andrelandia e deteve, remettendo-o para a capital. Mesmo antes da intentona, Pedro Coutinho havia sido preso no Rio, por prégar e credo vermelho. Leccionou em escolas da capital da República e, em 35, envolveu-se nos acontecimentos que consanguentaram o paiz, estando, por isso sendo procurado pela polícia carioca.
O sr. Orlando Moretszohn [...] interrogou o extremista que deverá ser enviado para o Rio [...].

Foi provavelmente nesse período que ele passaria a ter contato com o advogado Heitor Rocha Faria, já que este seria designado defensor de Coutinho no processo movido pelo Estado por seu envolvimento nas tentativas de reorganização do PCB, em decisão do juiz Raul Machado, Heitor seria designado advogado em lugar de Carlos Alberto Dunshee de Abranches.[6] Poucos anos depois, Heitor também atuaria como advogado na defesa de causas judiciais de posseiros da região do Sertão Carioca e Baixada Fluminense. Junto com Pedro se tornariam os principais militantes comunistas a fornecerem serviço jurídicos por meio das associações estruturadas pelo PCB (Ligas, Associações Democráticas, Sindicatos).


O Globo, 15 de Janeiro de 1937, noticiando a tentativa de recriação da ANL por Pedro Coutinho e seus “asseclas”. Coutinho aparece na foto do meio da linha inferior.


Em março do ano seguinte seria levado aos tribunais, para ser mais exato, ao Tribunal de Segurança Nacional, onde o juiz Raul Machado condenou Pedro e seus companheiros a um ano de prisão pelo “crime” de tentar reorganizar a “Alliança Nacional Libertadora” (Correio Paulistano, 30/03/1938, p. 3). Depois de cumprir a pena, Pedro passou pouco fora da cadeia. Em 13 de abril de 1940 era novamente preso com outras dezenas de militantes após uma grande operação da polícia de “Ordem Política e Social” por vários estados do Brasil. Segundo o então chefe de polícia da época, Filinto Müller, tratava-se de uma “trama macabra” dos “agentes vermelhos”, que por meio de ampla ação partindo de São Paulo visavam a reorganização do PCB. Logo depois conseguiria o relaxamento de sua prisão. Mesmo tendo sido acusado de fazer parte desse “plano terrorista”, sendo denunciado ao Tribunal de Segurança Nacional, Pedro aguardava o julgamento em liberdade quando, sob influxos da vitoriosa campanha dos Aliados na II Guerra, irrompe no Brasil um movimento em prol da anistia aos presos políticos do regime varguista.
Esta seria a primeira grande campanha que Pedro se lançaria. Campanha essa, a “Pró-Anistia”, que não apenas garantiria a sua liberdade como a volta do PCB à legalidade. Pedro seria um dos principais nomes da cidade do Rio nessa vitoriosa campanha, tendo se dedicado a coordenar a criação dos comitês de bairro Pró-Anistia. Sim, vitoriosa: em 18 de abril de 1945 era assinado o decreto-lei de anistia pelo presidente Getúlio Vargas.
Mal havia encerrada aquela campanha, Pedro Coutinho já trataria de reconstruir o PCB, agora na legalidade. Após a libertação dos seus antigos líderes, a prioridade passava a ser a reativação da agremiação, que quase foi extinta entre os anos 30 e 40. Com esse objetivo Pedro e outros quadros prontamente se mobilizaram para organizar eventos em “homenagem a Luiz Carlos Prestes” e campanhas de reconstrução de sua imprensa, o jornal Tribuna Popular.
Pensando em termos estratégicos, Pedro se fixaria exatamente na zona rural da cidade, onde adquiriria até um imóvel residencial no bairro da Taquara, no então distrito de Jacarepaguá. O próprio Pedro Coutinho se veria envolvido num litígio de terras na região nos anos 1950.
A região crescia enormemente, tanto em termos de estrutura urbana (ruas, construções, linhas de bonde e ônibus) quanto demograficamente.[7] E até por isso as terras agrícolas nas quais trabalhavam centenas de famílias de pequenos lavradores vinham sofrendo forte pressão pela expansão urbana. Os conflitos por terra se avolumavam desde a década de 40. Ou seja, a região era um palco de tensões e lutas. Um cenário de grande interesse para o PCB que coube a Pedro Coutinho desbravar.



Pedro, o primeiro sentado da esquerda para a direita, num evento Pró-Anistia. Fonte: Tribuna Popular, 20 de maio de 1945, p. 3.


[1] Estes são alguns dos trabalhos dessa nova tendência: MAGALHÃES, Mario. Marighella - o Guerrilheiro Que Incendiou o Mundo. São Paulo: Companhia Das Letras, 2012; REIS, Daniel Aarão. Luís Carlos Prestes: um revolucionário entre dois mundos. São Paulo: Companhia das Letras, 2014. PERICÁS, Luiz Bernardo. Caio Prado Júnior: uma biografia política. São Paulo: Boitempo, 2016.
[2] Podemos citar como alguns dos escritos representativos dessa época: CORRÊA, Hércules. Memórias de um Stalinista. Rio de Janeiro: Opera mostra, 1995. BEZERRA, Gregório. Memórias. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980; BRANDÃO, Octavio. Combates e batalhas. São Paulo: Alfa-Ômega, 1978.
[3] APERJ. Fundo DOPS. Série Sindicato: Sociedades Civis, n. 72; Série Informações, n. 34: “memorando nº 69/62”.
[4] Cícero Romão Batista era o nome oficial de Padre Cícero. Nascido na cidade cearense de Crato em 24 de março de 1844 e falecido em Juazeiro do Norte, 20 de julho de 1934 foi uma liderança religiosa e política não só do Nordeste como do Ceará.
Ele era de tendência fortemente conservadora, tanto que era membro do Partido Republicano Conservador (PRC) e profundamente anti-comunista. Numa entrevista de 1931, chegaria afirmar que: "O comunismo foi fundado pelo Demônio. Lucífer é o seu nome e a disseminação de sua doutrina é a guerra do diabo contra Deus. Conheço o comunismo e sei que é diabólico. É a continuação da guerra dos anjos maus contra o Criador e seus filhos." - In: “Na casa de Padre Cícero”, O Povo, 14 fevereiro de 1999.
[5] A Aliança Nacional Libertadora  foi criada na primeira metade da década de1930 e se constituiu numa frente nacionalista e de esquerda integrada por correntes de caráter anti-imperialista, antifascista e anti-integralista (congregando comunistas, alguns tenentes, operários e intelectuais de esquerda). Embora tivesse um caráter pluripartidário, no inicio de 1935 a organização encontrava-se sob domínio do PCB e assim foi até a sua dissolução em julho de 35.
[6] Gazeta de Notícias, 12/11/1937, p. 6.
[7] Para um estudo mais detalhado sobre a urbanização de Jacarepaguá, indico os seguintes trabalhos: FERNANDES, Leonardo Jefferson. O remédio amargo: as obras de saneamento na Baixada Fluminense.    Seropédica, Dissertação de mestrado em Desenvolvimentos  Agrícola/CPDA/Universidade  Federal  Rural  do  Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1998; GALVÃO, Maria do Carmo Corrêa. Lavradores brasileiros e portugueses na Vargem Grande, In: Boletim Carioca de Geografia, Rio de Janeiro, n° 3 e 4, 1957; MUSUMECI, Leonarda. Pequena produção e modernização da Agricultura: o caso dos hortigranjeiros  no  estado  do  Rio  de  Janeiro.  Rio  de  Janeiro:  IPEA/ INPES, 1987; PECHMAN,  Robert  Moses.  Gênese  do  mercado  urbano  de  terras,  a  produção  de moradias e a formação dos subúrbios no Rio de Janeiro. 1985. Rio de Janeiro, Dissertação de       Mestrado       em       Planejamento       Urbano       e Regional/Universidade Federal do Rio de Janeiro, 1985; SANTOS, Leonardo Soares dos. Um Sertão entre tantas certezas: luta pela terra na zona rural da cidade do Rio de Janeiro. Niterói, Dissertação de mestrado em História/UFF, 2005; SOUZA, João Gonçalves de. “Custos de produção e preços de venda dos produtos agrícolas do Distrito Federal” In: Boletim Carioca de Geografia, Rio de Janeiro, ano IV n°1, 1951; VIANA, Helio. Baixada de Jacarepaguá: Sertão e Zona Sul. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura, Turismo e Esporte? DGPC, 1992.

Continue lendo →

segunda-feira, 18 de novembro de 2019


JACAREPAGUÁ, IMAGENS DE UM TERRITÓRIO RURAL E NEGRO

Por Leonardo S. Santos



O acervo de imagens que se encontra localizado no Arquivo Nacional do Rio de Janeiro é uma fonte valiosa de documentos sobre um passado cada vez mais distante da Baixada de Jacarepaguá. As fotografias antigas sobre as paisagens física e humana da região são verdadeiras fontes
históricas, de inestimável valor material e imaterial.


  Atual Recreio. Fundo: DNOS/Arquivo Nacional.


  Atual Recreio. Fundo: DNOS/Arquivo Nacional.


Temos ali sob nossas vistas imagens vivas de um perfil rural, com suas criações de animais, lavouras e pomares cobrindo quase que toda a extensão da baixada, os primeiros núcleos urbanos. Tudo isso aparece num riquíssimo conjunto de fotografias e negativos reunido pelo Arquivo Nacional a partir de diferentes fundos (instituições que produziram as imagens). Os principais fundos são o extinto jornal Correio da Manhã, o Departamento Nacional de Obras e Saneamento (o antigo DNOS), Serviço Nacional de Informação (SNI), Agência Nacional e Ministério da Saúde.

Para além dos aspectos geográficos e naturais, as imagens revelam antigas atividades econômicas que antes vigoravam (agricultura, pesca, pecuária), formas de sociabilidade (vendas, armazéns, festas religiosas) e os agentes sociais que viviam e na região.      



 Um tapete de lavouras. Fundo: DNOS/Arquivo Nacional.

  Praia da Barra. Fundo: Correio da Manhã/Arquivo Nacional.

Praia da Barra. Fundo: Correio da Manhã/Arquivo Nacional.

Praia da Barra. Fundo: Correio da Manhã/Arquivo Nacional.

Praia da Barra. Fundo: Correio da Manhã/Arquivo Nacional.


Praia da Barra. Fundo: Correio da Manhã/Arquivo Nacional.


Fazenda da Restinga. Fundo: Correio da Manhã/Arquivo Nacional.

Exploração de Turfa na antiga Pedra da Panela. Fundo: Correio da Manhã/Arquivo Nacional.

Exploração de Turfa na antiga Pedra da Panela. Fundo: Correio da Manhã/Arquivo Nacional.

Exploração de Turfa na antiga Pedra da Panela. Fundo: Correio da Manhã/Arquivo Nacional.

Exploração de Turfa na antiga Pedra da Panela. Fundo: Correio da Manhã/Arquivo Nacional.

Canal do Anil, quando era limpo e navegável. Fundo: Correio da Manhã/Arquivo Nacional.

Exploração de Turfa na antiga Pedra da Panela. Fundo: Correio da Manhã/Arquivo Nacional.




Outro acervo de extrema relevância histórica é o do também extinto jornal Última Hora, que se encontra sob a guarda do Arquivo Público do estado de São Paulo.

Um dos aspectos a serem destacados, como algumas imagens atestam, é o predomínio da população negra nos territórios da Baixada de Jacarepaguá. E essa marca é de grande relevância para a conformação histórica da região. Uma marca que deve ser cotidianamente celebrada e politicamente valorizada.


Trabalhadores da Fazenda da Restinga. Fundo: Última Hora/Arquivo Público do Estado de São Paulo.


Tal traço étnico da região é também visível em algumas fotografias do acervo do Arquivo Nacional. Temos aqui uma comprovação dos relatos da década de 1930 do naturalista Armando Magalhães Correa, que em seu O Sertão Carioca já dava conta da grande pesença negra na Baixada de Jacarepaguá. 

E, importante destacar, os próprios pesquisadores do IHBAJA tem se dedicado a estudar esse importante aspecto de nossa história. Falo dos trabalhos de Julio Doria e Renato Doria, dois promissores pesquisadores da região.


Entrada da Gardênia Azul. Fundo Correio da Manhã/Arquivo Nacional.















































































































Trabalhadores (todos negros) da exploração de turfa na fazenda da Restinga.
Na área onde fica atualmente o aeroporto da Barra. Fundo DNOS/Arquivo Nacional.  
Continue lendo →

domingo, 17 de novembro de 2019

Caminhada Histórica do IHBAJA



O Instituto Histórico da Baixada de Jacarepaguá (IHBAJA) realizará, no dia 30 de novembro, uma caminhada histórica até o Núcleo Camorim do Parque Estadual da Pedra Branca. Essa atividade faz parte do projeto “Trilhas de Jacarepaguá: Caminhando pela Nossa História”, que visa apresentar alguns aspectos do patrimônio cultural, histórico e natural da região de forma lúdica e interativa. O evento integra a programação da Semana Fluminense do Patrimônio e será gratuito.
Horário: 9h
Ponto de encontro: Estrada do Camorim, 925 – na porta da Capela de São Gonçalo de Amarante.

Continue lendo →