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domingo, 12 de julho de 2015



Nenhuma informação pudemos obter sobre as origens e o início da trajetória do advogado Heitor Rocha Faria no PCB. O registro mais remoto data de 1947, logo depois da cassação do PCB pelo Supremo Tribunal Eleitoral, quando H. R. Faria impetrou um habeas corpus, posteriormente negado pelo Supremo Tribunal Federal, em favor de Luiz Carlos Prestes e outros dirigentes do PCB.
Sabemos, contudo, que sua trajetória guarda muitas semelhanças com a de seu companheiro de partido e profissão, o também advogado Pedro Coutinho Filho. No que tange a luta pela terra, H. R. Faria atuou como advogado dos “posseiros” e “arrendatários” da Fazenda Coqueiros, em Santíssimo, por meio da Associação de Lavradores da Fazenda Coqueiros(ALFC). Tal organização foi criada em 1952 e tudo indica que ela tenha sido idealizada por ele e Lyndolpho Silva, seu primeiro presidente. Além das “providências jurídicas”, H. R. Faria participava ativamente das discussões dos Encontros e Assembléias organizadas pela ALFC, opinando sobre encaminhamentos e propostas de cunho propriamente político. Também teve presença destacada na I Conferência dos Lavradores do Distrito Federal (1953), chegando a ter sua “Tese” de número nº 13 aprovada para constar do documento final desse encontro. Por meio dela, propugnava os seguintes pontos: que “a lavoura” devesse ser “explorada obrigatoriamente e privativamente pelas Associações de pequenos lavradores”; conjugação das Cooperativas de produção e de consumo na Constituição das Associações; atribuir às Associações o “serviço social a ser prestado ao lavrador”. Ele seria também, na condição de “advogado e consultor jurídico” da ALFC, o secretário-geral da I Conferência dos Lavradores do Distrito Federal em 1958. É muito provável também que o advogado tenha sido um dos principais elaboradores da “Carta do Lavrador”, espécie de documento final do encontro, e que foi oficialmente proposta pela ALFC.






Mas a atuação de H. R. Faria no movimento de luta pela terra não se limitou àquela localidade do Sertão Carioca, pois teve também papel de destaque na luta dos “posseiros” de Jacarepaguá também, atuando como advogado.
Sabe-se que Heitor também teve notável participação em Jacarepaguá como militante pecebista, instruindo e coordenando os pequenos lavradores da região na montagem e organização de entidades associativas. Ele vinha periodicamente a Jacarepaguá participar de reuniões e eventos políticos nas Associações de Lavradores, no Comitê Democrático Progressista e na Liga Camponesa.
Sua filha Rhonneds Aldora nos conta que ele era chamado em Jacarepaguá para participar de casamentos, churrascos e batismos. Era tanta a admiração dos posseiros da região por ele, que Heitor acabou sendo o padrinho de vários de várias crianças. O que mostra o elevado grau de reconhecimento de todo o trabalho que ali desenvolvia. E isso sem cobrar um tostão. Rhonneds diz que ele não tinha coragem de cobrar de pessoas tão humildes. Todo o serviço jurídico era realizado gratuitamente.

Leonardo Soares é pesquisador do IHBAJA e professor da UFF
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segunda-feira, 20 de abril de 2015

“Pai dos pobres” e dos enfermos também: As visitas de Getúlio Vargas à Colônia Juliano Moreira

*Janis Cassília
Professora e pesquisadora do IHBAJA
Doutoranda em História das Ciências e da Saúde pela Casa de Oswaldo Cruz - Fiocruz


       É certo e assunto já discutido que o governo getulista do Estado Novo baseou-se na personificação do poder na figura do presidente, tratando-o como figura interessada em salvar a nação. Getúlio Vargas foi considerado o “pai dos pobres”. Por decretar direitos importantes para o trabalhador, como a Consolidação das Leis Trabalhistas. A ele eram endereçados inúmeras cartas pedindo auxílio. Eram solicitações de emprego, viagens, casas, remédios, etc. Uma simples visita do então presidente virava uma manifestação popular e patriótica.
            Assim eram as visitas de Getúlio à Colônia Juliano Moreira. Inaugurada em 1924, durante as décadas de 40 e 50 recebeu incentivo financeiro federal para aumentar suas instalações e transformar-se em centro de excelência no tratamento psiquiátrico. Era o enorme hospital-colônia de Jacarepaguá que abrigava na década de 50 mais de 3 mil pacientes. A cada novo pavilhão, núcleo, hospital, ambulatórios ou outros edifícios e serviços, autoridades vinham para a instituição e realizavam as cerimônias de inauguração. Getúlio era um deles, na verdade, a figura mais importante, a que discursos eram proferidos em homenagem.


“Visitando a Colônia Juliano Moreira, o presidente Getúlio Vargas palestra com um enfermo ali internado” (1941).
Fonte: Anais da Assistência a Psicopatas, 1941, p.21


“O Dr. Adauto Botelho, diretor do serviço de assistência a psicopatas mostrando ao Presidente Getulio Vargas as novas instalações da CJM.” (1941) Fonte: Anais da Assistência à Psicopatas. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1941, p. 31.


            Em 1941, por ocasião de inauguração de obras do futuro núcleo Teixeira Brandão (para pacientes mulheres), uma série de cerimônias foram realizadas. A esses eventos compareceram autoridades e familiares, médicos e residentes das localidades próximas. Era uma verdadeira festa, a que personagens geralmente excluídos da sociedade tomavam parte, os enfermos. Fazia parte da propaganda governamental promover tais eventos e por isso não era incomum Getúlio caminhar por dentro da Colônia solicitando informações sobre as condições de vida dos internados. Até conversas com os mesmos eram registradas, isto é, com os doentes autorizados a caminhar pela instituição.       
            Essa presença do então presidente era tão marcante que os próprios internos da Colônia narravam em suas falas. Escreviam à Getúlio como indivíduos consciente de seus direitos como Amália*, internada com o diagnóstico de Epilepsia, que se dirigiu à Cascadura sem autorização médica, e enviou telegrama ao Gabinete do Presidente pedindo sua liberdade. A carta de Amália teve resposta e foi necessário que os médicos convencessem os representantes do Gabinete de que a mesma não poderia obter alta. Muitos ofícios foram trocados entre as instituições para que Amália tivesse alta. Ao presidente cabia aliviar e ajudar o cidadão que pedia auxílio coisa que no caso de Amália não se cumpriu uma vez que com o diagnóstico confirmado, o poder médico se sobrepôs ao poder do presidente.
            O imaginário popular sobre Getúlio Vargas é riquíssimo. Seja como ditador ou como “pai dos pobres”, este presidente adentrou mentes sãs e ditas doentes em sua época. Amália* entre outros são apenas alguns dos internos da Colônia que falavam sobre o governante. Eles eram amantes, mães, amigos, padrinhos, afilhados, filhos, pessoas bem relacionadas com o presidente, que por sua vez intercedia por eles nas suas mentes, e fora delas também.
           


* Todos os nomes aqui mencionados são fictícios para preservar a identidade dos indivíduos. Os casos clínicos aqui mencionados integram a dissertação de mestrado da autora pelo Programa de Pós-Graduação em História das Ciências e da Saúde da Fiocruz.
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quarta-feira, 4 de março de 2015

Rio 450 anos

        No início do século XVI, os índios tamoios habitavam todo o atual território fluminense. Eles foram dizimados pelos portugueses, que basearam o seu projeto colonial em dois grandes vieses: usurpação das terras indígenas e exploração da sua força de trabalho. Como eram grandes guerreiros, os indígenas resistiram bravamente através da Confederação dos Tamoios que, aliada aos franceses durante dez anos (1555-1565), desafiou a soberania portuguesa no sul da colônia.

Vista do Pão de Açúcar. Arquivo Pessoal.

 Em 1555, os franceses aportaram na Baía de Guanabara e fundaram o forte de Coligny na Ilha de Serigipe. Comandados pelo almirante Nicolas Durand de Villegagnon pretendiam garantir a exploração do pau-brasil e conseguir um território onde os calvinistas franceses pudessem exercer livremente sua religião. Essa colônia, chamada de França Antártica, existiu de 1555 a 1567.

No dia 1º de março de 1565, o Capitão-mor Estácio de Sá fundou, entre o Morro Cara de Cão e o Pão de Açúcar, a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. A cidade recebeu esse nome em homenagem ao Rei de Portugal, D. Sebastião. A localização lhe possibilitava servir de abrigo para os ataques franceses. O ponto de referência para delimitar o território da recém-criada cidade foi uma casa de pedra construída em 1530 por Martim Afonso de Souza. Ela era muito sólida e diferente das habitações dos tamoios, por isso foi chamada pelos índios de karaiwa  oka, que significa "casa do homem branco”. A partir do século XVIII, o termo “Carioca” passou a ser usado como apelido para os moradores da cidade.

A primeira expedição portuguesa para expulsar os franceses foi organizada por Mem de Sá, o terceiro Governador-Geral do Brasil, em 1560. Apesar de ter destruído o forte de Coligny, essa incursão não obteve o sucesso esperado, pois os habitantes do forte fugiram para o continente com a ajuda dos tamoios. A derrota definitiva só ocorreria sete anos depois, quando Estácio de Sá recebeu reforços do seu tio Mem de Sá. Em 20 de janeiro de 1567, no Outeiro da Glória, os franceses finalmente foram expulsos da colônia portuguesa e os tamoios tiveram suas aldeias destruídas e suas terras ocupadas e distribuídas entre os portugueses.



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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

A rede de organizações comunistas de Jacarepaguá


Boa parte da historiografia que tratou de revisar a história das esquerdas no país, com maior ênfase no Partido Comunista do Brasil (PCB), buscou com uma obstinação assustadora provar que se havia algo que essa corrente não gostava, esse algo atendia pelo nome de "povo". Queria-se com isso afirmar que os nossos grupos de esquerda tinham pouco ou pouquíssimo apreço pelo trabalho junto ás bases populares, preferindo ditar regras e normas sobre a verdadeira consciência de classe atrás de suas escrivaninhas e á frente de pilhas de empoeirados tomos de vulgarização do marxismo editados pela escola soviética (e stalinista) de ciências. Mas as pesquisas mais recentes, baseadas maciçamente na apuração de documentos de época, têm revelado uma faceta bem mais interessante – e muito menos caricata – dos militantes e das organizações que pertenciam ao antigo PCB.

E vale lembrar que os comunistas tiveram passagem marcante, embora pequena, na região de Jacarepaguá. Atuação esta que remonta ao período em que o bairro era ainda quase que totalmente agrícola, desde os anos 30. Algumas células da Aliança Nacional Libertadora (ANL) são dessa época. O próprio perfil agrário do bairro, que era caracterizado por um certo isolamento do local, favorecia a realização de atividades de “agitação e conspiração” de maneira mais tranquila e sossegada – ao menos teoricamente.



Casa do Tanque onde eram realizadas reuniões da célula comunista local


A partir dos anos 40, mais precisamente no ano de 1945, com a volta do Partido à legalidade, alguns de seus quadros viam em Jacarepaguá um lugar de grande potencial para a montagem de uma rede sindical vermelha na zona rural da cidade. Além disso, a crescente expansão urbana produzia consequências ambíguas: se de um lado aumentava a demanda por serviços públicos urbanos (estradas, ruas, calçamentos, luz, água, postos de saúde etc.), por outro, tal expansão colocava em risco a agricultura do lugar. Todavia, não restava dúvida que eram situações de grande potencial conflitivo e os comunistas viam nisso uma excelente oportunidade de marcar posição junto aos habitantes do bairro. Na verdade começava ali, com grande participação do PCB, um amplo processo de criação de movimentos locais que demandavam por melhorias nos diferentes bairros.


Outra sede de reuniões


E seria nesse contexto que o Partido criaria os Comitês Populares Democráticos (CPD), que seguiam a chamada política de massas do “partido de Prestes”.  Notem que aqui não passava pela cabeça de ninguém fazer algo sem o prévio processo de politização das classes populares. E, detalhe, não se está falando aqui de algo como uma revolução – mas tão somente uma ação em prol da construção de uma bica d’água ou do conserto de uma calçada -  que era algo geralmente em falta em Jacarepaguá naqueles anos 40, quase 50 (e ainda seguiria faltando por várias décadas afora).


Neste endereço (início da estrada do Gabinal) foram realizados alguns eventos da Liga Camponesa de Jacarepaguá




Com esse propósito, militantes do PCB como o cearense Pedro Coutinho Filho, o médico Jacinto Luciano Moreira e ativistas como Waldyr Moura e Antonio Caseiro montaram algumas organizações que tinham como objetivo específico prover serviço jurídico aos seus associados, lutar pelas melhorias no bairro e organizar eventos como assembleias, palestras, mesas-redondas e até festas e churrascos (quem é de ferro?).

Esses eram os temas tratados nos vários CPD’s criados pelos comunistas, assim como na Liga Camponesa de Jacarepaguá, nas inúmeras células (23 de Outubro, Ajuricaba), nas Uniões Femininas e nas Comissões pela Paz.



Leonardo Soares é historiador do IHBAJA e professor da UFF
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quinta-feira, 8 de janeiro de 2015




Não é de hoje que as terras da região de Jacarepaguá (em especial as da Barra da Tijuca) são escandalosamente roubadas, em plena luz do dia, sob as barbas dos poderes públicos. Na verdade, a história dessa área revela um processo incessante de esbulhos, falcatruas cartorárias e atentados contra a vida humana, por conta das inúmeras disputas envolvendo a posse e a proriedade da terra. E isso desde os tempos dos clãs dos Assecas e dos Sás, e com a intermediação nada sagrada de algumas ordens religiosas (estas também grandes senhoras e possuidoras de terras).

E a coisa só piorou no período imperial e – pasmém – republicano. E no século XX a questão ganhou contornos mais dramáticos. Já que se nas épocas anteriores, a violência só atingia apenas as famílias diretamente envolvidas nas disputas, a partir de meados do século XX a sanha das loteadoras passa a visar a expulsão de centenas de famílias de uma mesma área e de forma indiscriminada.

Na antiga zona rural da cidade do Rio a expansão urbana fez inúmeras vítimas. De Santa Cruz a Jacarepaguá, vários casos de dor e sofrimento de famílias de pequenos lavradores dão testemunho do processo criminoso de expoliação que varreu a agricultura carioca. Na área de Vargem Grande e Vargem Pequena os lavradores eram obrigados a aceitar “um contrato com cláusulas medievais” do Banco de Crédito Móvel. O Radical noticiava em agosto de 1950, que as Companhias Tijucamar, Barra da Tijuca AS e Lagoamar AS agiam na Restinga de Jacarepaguá (atual Barra da Tijuca) para “negociar” terras que não lhe pertenciam. Por conta disso, “posseiros trintenários eram desalojados a mosquetão e a sevícias” por “capangas armados até os dentes”.

Sem esquecer da Fazenda Santo Antônio de Curicica (Jacarepaguá). Os primeiros embates entre lavradores e pretensos proprietários a chamar a atenção da imprensa datam do início da década de 50. Em 1952, por exemplo, os senhores Júlio César Fonseca e Gustavo de Carvalho (pretensos proprietários) conseguiram uma ordem de despejo contra cerca de 120 famílias que, assim diziam, trabalhavam ali há mais de 30 anos. Outra exigência foi encaminhada ao prefeito no sentido de que esse designasse uma comissão composta de três engenheiros para proceder ao “levantamento da área”. A luta desses lavradores era bem mais antiga: há 17 anos pelo menos, muitos deles vinham depositando as taxas de arrendamento em juízo. Em 1947, a Cooperativa de Agricultores de Jacarepaguá e a Liga Camponesa de Vargem Grande já mobilizavam esforços para tratar da “ameaça de expulsão” de 46 lavradores na Fazenda Curicica. Mas nesse momento, as salas dos tribunais já não eram suficientes para comportar por inteiro os embates entre os lavradores, que se diziam responsáveis pelo abastecimento de 40 toneladas diárias de legumes, frutas e verduras aos mercados do DF, e os “grileiros” Júlio César Fonseca, Luiz Saddy, o Banco de Crédito Móvel, a Cia. Bandeirantes e o Banco de Crédito Territorial, acusados de se valerem “de documentação falsa e de outros meios escusos” para satisfazerem seus intentos - afirmava o’ Radical em 1954. “A luta pela posse da terra está mais acêsa e mais violenta em Jacarepaguá” – noticiava com certo entusiasmo o jornal comunista Imprensa Popular em julho de 1954. Lendo as declarações de alguns lavradores, é possível perceber que as disputas em torno da posse da terra já não tinham o recato e comedimento exigidos por uma disputa jurídica. Ao contrário, os últimos acontecimentos davam força à idéia da história de Curicica como tendo sido feita “de sangue, violências e desumanidades”. O aumento da violência era atribuído por lavradores e imprensa à aplicação de uma tática agressiva por parte dos pretensos proprietários. Segundo nos conta o Imprensa Popular, em meados dos anos 50 “o grileiro César Augusto da Fonseca conseguiu trampolinescamente(sic) ampliar uma área de 535 mil para quase 5 milhões de m² a poder de tapeações, crimes e tocaias”.


Agora há que se perguntar: vendo o que hoje está sendo feito pelos poderes públicos e as empresas (e empreiteiras) que financiam suas candidaturas, no sentido de despejar e destruir a vida de moradores de “ocupações” que estão no “meio de caminho” dos grandes eventos: alguma coisa mudou? Ou a história que teima se repetir?


Leonardo Soares é pesquisador do IHBAJA e professor da UFF.


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domingo, 24 de agosto de 2014

Participação de membro do IHBAJA em mesa redonda do Aldeya Yacarepaguá em Setembro

No dia 23 de setembro de 2014, às 15h, Valdeir Costa, membro do IHBAJA participará de mesa redonda sobre a História de Jacarepaguá no Aldeya Yacarepaguá realizado pelo SESC.  A mesa reunirá dois escritores: Carlos Araújo, autor do livro “Jacarepaguá de antigamente e Rio de Janeiro – um pouco de sua história”, e Val Costa, autor do livro “Desvendando a Barra da Tijuca e Jacarepaguá”, escrito em parceria com Luciana Araujo. O historiador Michael Carneiro, primeiro presidente do Instituto Histórico da Baixada de Jacarepaguá, fará a mediação da conversa acerca dos processos históricos da região de Jacarepaguá registrados em ambos os livros.
Local: Espaço Cultural Escola SESC - Auditório - 120 minutos - classificação 14 anos.
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A Escola 7-19, ter ou não ter uma escola dentro da Colônia Juliano Moreira.


Janis Cassilia
Professora e pesquisadora do IHBAJA
               
Durante muito tempo perguntou-se se a loucura era “contagiosa”. Estar próximo de loucos podia prejudicar a mente sadia? Na história da psiquiatria brasileira, alguns médicos defenderam a ideia de que ao invés de se isolar o doente, deveria-se reinseri-lo na sociedade. A Colônia Juliano Moreira nasceu com esta ideia.
                Fundada em 1924, a Colônia Juliano Moreira, tinha como terapêutica o tratamento hetero-familiar, o convívio controlado dos pacientes em um "ambiente social sadio". Para isso foi criada um vila de moradores, isto é, aqueles considerados “bons funcionários” e suas famílias eram convidados a residirem dentro da propriedade, ganhando terrenos para construírem suas casas. Esse foi o embrião do atual bairro Colônia. Com o tempo essa vila de moradores cresceu e começou a reinvindicar melhorias no transporte, luz urbana, calçamento e estradas, parque, creche e escola. Parte dessas reinvidicações foram atendidas pelo Governo Federal. Uma delas foi a criação da Escola 7-19, em um pavilhão, para atendimento dos filhos desses funcionários.
                A Escola 7-19, hoje (Escola Municipal Juliano Moreira) encontra-se em outro prédio, logo na entrada da Colônia, no ex-pavilhão de atendimento a crianças e adolescentes do sexo masculino. Mas em 1943, o pavilhão utilizado, apresentava sinais de desgaste, além de um número de alunos que não pertencia à comunidade interna da Colônia. A escola cresceu e ganhou mais professoras. De fato, Jacarepaguá, era bastante deficiente em escolas. Segundo uma estimativa da época eram necessários 35 escolas para suprir a população da região. Mas qual a particularidade da Escola 7-19? Ela fez parte de um movimento social dentro da Colônia. Os hospitais psiquiátricos possuem como característica a “morte social” do paciente. Eles perdem suas famílias, amigos e identidades; passam a ser identificados e rotulados por números e diagnósticos. Para reinseri-los na sociedade, os dirigentes da instituição psiquiátrica criaram essa vila, onde os pacientes eram recebidos por famílias que conheciam seus temperamento, gostos, fobias, manias, diagnósticos e histórias de vida.
                Para os moradores, a existência dessa escola era vista por uns como problemática e por outros como justificável. Na Mesa Redonda  promovida pelo Jornal “Diário de Notícias” em 1943 e com a participação de personagens de destaque do Rio de Janeiro, a grande discussão girava na inconveniência da localização da 7-19. A Sra. Dyla Sá (educadora) relatou que uma das professoras ficou doente diante das cenas que presenciou. Ela se posicionou contra a existência dessa escola. O sr. Válter Rocha Miranda alertava que a escola servia apenas para funcionários, mas o Sr. Edmundo Melo declarava que a maior parte dos alunos não eram filhos de funcionários. Um funcionário da Colônia, de nome Bento Monteiro, afirmou que se os médicos não viam inconveniências na existência da escola porque eles veriam? A reportagem mostra como era a visão da loucura e a relação entre psiquiatras e moradores. Nem sempre a decisão médica era vista como benéfica. Como poderiam alunos inocentes conviver com loucos? Deveriam transferir a escola de local?



Jornal Diário de Notícias noticiando a mesa rendonda em Jacarepaguá em 1943.

           Outros problemas foram levantados: a falta de condução para as professoras, o funcionamento da segunda série escolar em um galpão improvisado, e a promessa de novas instalações para a escola. Mas a questão da Escola 7-19 estar dentro da Colônia foi muito forte. Diversas opiniões foram ouvidas, sem se chegar à um consenso. Ainda que tenha mudado para outro prédio, mais adequado às suas funções, a Escola 7-19 atravessou as décadas e deu origem à Escola Juliano Moreira. Passou a atender oficialmente alunos de fora da Colônia. Com a chegada da década de 1970 e a Reforma Psiquiátrica,algumas das antigas instalações da Colônia foram sendo desativadas e a internação passou a diminuir. O número de moradores aumentou, passando seus filhos a serem alunos da antiga Escola 7-19, outrora pioneira na promessa do tratamento da doença pelo convívio com as “boas famílias” da Colônia Juliano Moreira.




Fachada da Escola Municipal Juliano Moreira. Retirado do site: www.rioeduca.net
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domingo, 27 de julho de 2014

Por Leonardo Soares dos Santos*

Por conta da II Guerra Mundial, as Copas de 1942 e 1946 foram suspensas. O mais beneficiado com a conflagração acabou sendo o Brasil, que por conta da quase aniquilação física e material da Europa foi instado por Jules Rimet a  sediar a Copa de 1949. Isso mesmo, a Copa se daria nesse ano e não em 50. Mas, devido a atrasos nas obras(!), o governo pediu que o evento fosse adiado em 1 ano. A FIFA prontamente acatou. Nem preciso dizer que todo o processo de construção dos estádios foi marcado na época por grandes denúncias de desvio, superfaturamento e atraso. Para se ter uma idéia, nenhum estádio foi entregue pronto. E muita gente, mas muita gente mesmo, reclamava pelo fato do governo gastar tanto num “evento esportivo”, com escolas e hospitais caindo aos pedaços….. (Careta, 1/11/47, p.16) O “povo antes de fazer ginástica precisa de alimento”, tascava O Malho em sua edição de fevereiro de 1948.


Mas nenhum estádio causou tanto rebuliço quanto o principal deles – o Maracanã. Por muitas semanas muitos temeram que ele tivesse um outro destino. E um personagem que tanto marcaria os destinos do país muito lutou para que isso ocorresse.


Assim que a Copa do Brasil foi confirmada, uma das primeiras providências foi projetar um estádio para a então capital da república. Depois de estudos sem qualquer transparência decidiu-se construí-lo no local do antigo Jockey, também chamado de Derby Club, às margens do rio Maracanã. Nascia então o projeto do Estádio Municipal – e esse era o seu nome. Só faltava a famosa verba orçamentária, que em bom português brasileiro significa – dinheiro arrancado do bolso dos contribuintes. Tudo corria bem até o então prefeito Mendes de Morais levar tal demanda à Câmara Municipal. Os governistas quiseram empurrar goela abaixo o projeto sem maiores discussões. Mas para seu azar, um jovem vereador da UDN começava ali sua trajetória, marcada pela virulência de seus discursos e posicionamentos – integralmente anti-governistas e de direita. Estamos falando de Carlos Lacerda. E uma de suas primeiras cruzadas foi lutar contra o Maracanã.


Outros eram mais radicais, como Tito Lívio, também da UDN, que era contra a construção de qualquer estádio. Mas Lacerda não. A partir da constatação dos absurdos gastos que se desenhavam, ele aproveitava para propor a retomada do antigo projeto de construção de um estádio olímpico em Jacarepaguá, de autoria do engenheiro Antonio Laviola. O estádio teria capacidade para cerca de 150 mil pessoas, beirando a lagoa de mesmo nome. O udenista via nisso a possibilidade de impulsionar a urbanização da antiga zona agrícola. Até porque o projeto previa a construção de loteamentos urbanos, uma estação de trem, uma Vila Olímpica. E de quebra, o projeto de Laviola era muito mais em conta. Mas a proposta de Lacerda foi muito mal recebida, Jacarepaguá ainda era vista como uma roça, incompatível para receber um estádio moderno.



E nisso se bateram os parlamentares defensores da localização no antigo Derby. E ainda contaram com a entusiástica campanha de Mario Filho, irmão de Nelson Rodrigues. Pelas páginas d’O Globo ele organizou um verdadeiro movimento pró-Derby (Maracanã): o bombardeio contra Lacerda era diário. Fato que contribuiu para que, décadas mais tarde, o estádio recebesse oficialmente o nome de seu ardoroso defensor, como forma de homenagem, embora popularmente sempre fosse chamado pelo nome do rio que o margeava.



Mas por alguns meses o homem que mais tramou golpes nesse país ameaçou mudar o destino do “maior do mundo”. Se tivesse mais sorte, o estádio tinha tudo para ser chamado popularmente de Jacarepaguá (nome da lagoa que o margearia), e em termos oficiais seria o Estádio Municipal Governador Carlos Lacerda. A História e seus ardis – já dizia o velho Hegel.
* Leonardo Soares dos Santos é pesquisador do IHBAJA e UFF .
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terça-feira, 15 de julho de 2014

IHBAJA participa das atividades do Jubileu de Diamante da E.M. Pio X


O Instituto Histórico da Baixada de Jacarepaguá (IHBAJA) marcou presença nas comemorações do Jubileu de Diamante, sessenta anos (60) de existência da Escola Municipal Pio X. As atividades ocorreram no dia nove (9) de abril de 2014, no auditório da própria escola, situada à rua Serra Negra, № 103, no bairro do Tanque.

A E. M. Pio X é uma das mais tradicionais e antigas instituições de ensino público de Jacarepaguá e foi inaugurada em 15 de Agosto de 1954 pelo Presidente da República Getúlio Vargas.

Várias atividades foram organizadas pela Direção e a Coordenação educacional da escola, que contou também com o apoio de professores e estudantes. O IHBAJA foi convidado e foi representado pelos professores Val Costa e Renato Dória, que ministraram duas palestras sobre a História da Baixada de Jacarepaguá para os alunos do 9º Ano.
Professor Val palestrando
Val abordou o processo de ocupação da região, da Pré-História até o século XIX, enfatizando a valorização do Patrimônio Arquitetônico e Urbanístico. Já Renato apresentou um histórico das transformações sociais e econômicas que a região de Jacarepaguá sofreu ao longo do século XX, abordando o período rural, quando a região integrava o antigo Sertão Carioca e as lutas por direitos sociais e cidadania ocorridas no contexto de intervenções urbanas mais recentes.
 
Professor Renato palestrando

Os pesquisadores e professores do IHBAJA entendem que o conhecimento histórico sobre a região de Jacarepaguá não deve ficar restrito ao meio acadêmico e atua fortalecendo e incentivando atividades que visam difundir este conhecimento aos moradores da região. É uma forma de contribuir para a formação do pensamento crítico, da identidade cultural e da valorização das experiências históricas da população de Jacarepaguá.


Texto: Renato Dória e Val Costa
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IHBAJA e JAAJ marcam presença em evento de Agroecologia em Vargem Grande e Vila Autródromo

 
Entre os dias 19 e 21 de novembro de 2013, foi realizada a Caravana Agroecológica e Cultural do Rio de Janeiro, evento organizado por diversas entidades, instituições e movimentos sociais que fazem parte da Articulação de Agroecologia do Rio de Janeiro (AARJ). A organização de "Caravanas Agroecológicas" estaduais foi a metodologia definida para preparar, nos diversos estados do país, um encontro maior: o III Encontro Nacional de Agroecologia, realizado em maio de 2014, em Juazeiro, Bahia. 


Visitação à Vila Autódromo. Concentração dos participantes da Caravana para o café da manhã.

 
Na Caravana Agroecológica do Estado do Rio de Janeiro ocorreram diversas visitas a locais de experiência agroecológica e da pequena agricultura familiar, trocas de experiências, plenárias, cantoria e outras atividades culturais, como as feiras de alimentos típicos dos lavradores de várias regiões do estado e da cidade do Rio de Janeiro, principalmente da Baixada de Jacarepaguá. 
 
 
Visita à horta urbana e agroecológica da Vila Autódromo pelos integrantes da Caravana do Rio.
O destaque foi para a atividade de visitação à horta urbana de Vila Autódromo, favela titulada da região que resiste às tentativas de remoção por parte da Prefeitura há mais de 30 anos e reivindica a urbanização da comunidade. Outra presença digna de nota foi a dos lavradores de Vargem Grande, que se organizam há nos na Agrovargem, e que realizam um maravilhoso trabalho junto à direção da E. E. Teófilo Moreira da Costa, fornecendo alimento orgânico e da agricultura familiar para aquela escola e toda região de Jacarepaguá. Assim, a Caravana Agroecológica do Rio cumpriu seu papel fundamental: dar visibilidade para as experiências de resistência da agroecologia na região.
 
 
Barraca da Rede Carioca de Agricultura Urbana em Vargem Grande, organizada pela Agrovargem. Fica próximo ao Largo de Vargem Grande.
 
E o Instituto Histórico da Baixada de Jacarepaguá (IHBAJA) e o Jornal Abaixo Assinado de Jacarepaguá (JAAJ) estiveram presentes nas atividades dessa caravana, realizado na Vila Autódromo e no Largo da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, em Vargem Grande. O evento, ocorrido no feriado do dia da Consciência Negra do ano passado, 20/11/13, foi uma troca de experiências entre pequenos agricultores urbanos do Rio de Janeiro e diversos movimentos sociais que apoiam a luta por uma alimentação digna, livre de agrotóxicos e da exploração do homem pelo homem.





Concentração de participantes da Caravana Agroecológica do Rio de Janeiro no Largo de Vargem Grande. Falando à plateia, o diretor Carlos Motta da E.E. Teófilo Moreira da Costa e lavradores da Agrovargem.
Os professores-pesquisadores do IHBAJA Renato Dória e Val Costa participaram das atividades e apresentaram uma exposição de fotos do patrimônio arquitetônico e cultural da Baixada de Jacarepaguá e imagens do livro “O Sertão Carioca”, uma obra rara e leitura obrigatório para todos os que se interessam pela história da região.
 

Professor Val na banquinha do IHBAJA com a exposição de fotos do Sertão Carioca e do Patrimônio Arquitetônico de Jacarepaguá


Texto: Renato Dória e Val Costa
Fotos: Val Costa, Carlos Motta e Aparecida Mercês
 
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sexta-feira, 28 de março de 2014

IHBAJA participa de evento Cultural de Resistência Quilombola organizada por moradores da comunidade do Alto Camorim



No último domingo, 23 de março, ocorreu uma atividade de inestimável valor histórico e cultural no bairro do Camorim, na Baixada de Jacarepaguá: foi o Evento de Resistência Cultural Quilombola da Comunidade do Alto Camorim. Realizada pelos moradores da comunidade do Alto Camorim, teve o apoio da Rede Carioca de Agricultura Urbana, Instituto PACS (Políticas Alternativas para o Cone Sul) e da administração da Igreja São Gonçalo de Amarante, construída em 1625 e que cedeu o espaço para a realização da atividade. Outras organizações e entidades do movimento social de Jacarepaguá, que também colaboraram na organização do evento, estiveram presentes: a Associação Cultural do Camorim (ACUCA), o Jornal Abaixo Assinado de Jacarepaguá (JAAJ) e o Instituto Histórico da Baixada de Jacarepaguá (IHBAJA). Acadêmicos, moradores da região, visitantes da Baixada Fluminense, moradores de favelas de Jacarepaguá e da zona sul da cidade e militantes da Organização Popular-RJ também marcaram presença.



Um flagrante da abertura do evento: na foto, moradores do Alto Camorim, representantes da ACUCA,
da Rede Carioca de Agricultura Urbana, da Agrovargem e do Instituto PACS.
No evento, o destaque foi a presença de representantes de outras experiências de resistência na região de Jacarepaguá: uma comissão de moradores da Vila Autódromo, que relataram suas experiências recentes de luta contra as tentativas de remoção por parte da Prefeitura; e outra comissão da Associação de Agricultores de Vargem Grande (Agrovargem), que relataram suas experiências com os movimentos de agroecologia da cidade através da Rede Carioca de Agricultura Urbana e com a administração do Parque Estadual da Pedra Branca, devido às recentes controversas durante a elaboração do plano de manejo do parque.
 
O militante e pesquisador Renato Dória esteve presente no evento representando o Instituto Histórico da Baixada de Jacarepaguá e ofereceu a atividade "Nas Trilhas da Resistência", um bate-papo sobre a história de Jacarepaguá a partir das experiências de resistência protagonizadas por trabalhadores que viveram na região. É esta uma das formas que o IHBAJA busca contribuir com as lutas sociais e históricas que ocorreram e foram protagonizadas por moradores de Jacarepaguá. Na atividade, foi abordada desde a luta dos quilombolas da região até a luta dos lavradores do Sertão Carioca, época em que a região de Jacarepaguá fazia parte da zona rural carioca. A troca de experiências entre os presentes durante a atividade foi animadora, com destaque para a comissão de moradores da favela morro Santa Marta, que apresentaram aos presentes a experiencia de trilha histórica que realizam onde moram, uma das primeiras da zona sul.
 
Mais um flagrante da abertura da atividade. Desta vez, com representantes da comunidade do
Alto Camorim, do Jornal Abaixo Assinado de Jacarepáguá e do Instituto Histórico da Baixada de Jacarepaguá
 
   BREVE HISTÓRICO DA PRESENÇA QUILOMBOLA NO CAMORIM
 
Uma dos formas de se contar a história do bairro do Camorim é a partir da fundação, em 1622, do Engenho d'Água de São Gonçalo ou Engenho do Camorim, por Gonçalo Correia de Sá. Gonçalo foi um sesmeiro (senhor de terras) da região de Jacarepaguá durante o século XVII, onde mandou construir uma Igreja em 1625 nas terras do Engenho do Camorim. Filho de um dos primeiros Governadores Gerais da cidade do Rio de Janeiro, o general Salvador Correia de Sá, Gonçalo vem de uma família de militares que participou de inúmeras guerras empreendidas pelos portugueses no processo de conquista e ocupação do território americano contra as nações indígenas originárias e outras nações européias, como os franceses e holandeses. Entre os séculos XV e XVII, portugueses, espanhóis, franceses, holandeses e ingleses participaram da chamada Expansão Marítima, episódio que marcou profundamente a história dos povos dos continentes Africano e Americano, em decorrência das relações de dominação e escravização da gente destes territórios estabelecidas pelos europeus durante o processo de colonização.


Desta forma, não podemos deixar de lembrar que sesmeiros portugueses, como Gonçalo Correia de Sá e seu pai Salvador Correia de Sá, conquistadores e povoadores da cidade do Rio de Janeiro, foram responsáveis pela morte e escravização de milhares de indígenas e de africanos de diversas etnias. E neste contexto que é construído o Engenho do Camorim, movido a energia hidráulica e com o emprego de mão-de-obra escravizada, uma das mais modernas tecnologias de transformação da cana em açúcar naquele período. Foi também um dos primeiros a serem construídos na região de Jacarepaguá durante o período de conquista e ocupação do Rio de Janeiro pelos portugueses.
 
Representante do IHBAJA oferecendo a atividade "Nas Trilhas da Resistência",
onde abordou o histórico da presença quilombola na região de Jacarepaguá. A foto flagra
a área interna da Igreja São Gonçalo de Amarante, construída em 1625.

Outra forma de se contar a história do bairro do Camorim remete ao início do século XVII, no ano de 1614, quando os primeiros africanos escravizados chegaram à cidade e muitos deles foram trabalhar sob o regime compulsório nas terras aforadas de Jacarepaguá. Onze anos depois da chegada deste primeiro contingente de africanos escravizados e apenas três anos após a fundação do Engenho do Camorim, surge, em 1625, um dos primeiros quilombos do Rio de Janeiro colonial: o Quilombo do Camorim. Isto demonstra que as lutas de resistência de africanos escravizados não tardou a brotar no Rio de Janeiro após a invasão portuguesa.


Até o século XIX os quilombos contribuíram significativamente para o processo de construção do território da cidade a partir da resistência à escravização. As tropas imperiais avançavam constantemente sobre os territórios ocupados pelos quilombos, buscando aprisionar novamente escravos fugidos. Disso decorria a mobilidade espacial e temporal dos quilombos e sua localização nas áreas rurais, brejos, encostas ou nos vazios urbanos. Disso decorria também o avanço do território português na direção do sertão do Rio de Janeiro. E dos quilombos mais duradouros destaca-se o de Palmares, surgido no coração do nordeste. Não sabemos quantos anos durou o Quilombo do Camorim, em Jacarepaguá, mas sabemos que esta não foi a única presença de resistência quilombola na região.

Outro flagrante da atividade oferecida pelo IHBAJA aos particpantes do evento: na foto registramos
a intervenção de um dos participantes, morador da favela morro Santa Marta, onde desenvolve atividade de trilha histórica sobre a ocupação do morro desde os primeiros ocupantes.
No período final da escravidão, quando ocorreu um movimento de desfazer as alforrias e restabelecer a escravidão para ex-escravos, durante a década de 1880 os habitantes do Quilombo de Camboinhas (ou Camorim), na freguesia rural de Jacarepaguá, por pouco não foram surpresos e presos pela polícia imperial. Além destes registros, há outros indícios da presença de população quilombola e forra em Jacarepaguá. Nas encostas entre a serra dos Três Rios e a da Covanca, está situada a serra dos Pretos Forros, local que no início do século XX já abrigava ex-escravos libertos no morro da Cachoeirinha, na vertente do Lins. E na vertente da região da Taquara do maciço da Pedra Branca existe uma trilha que chega até a Pedra e o morro do Quilombo. Mais uma vez, vemos fortes indícios da herança da resistência política e cultural dos africanos na região.


O QUILOMBO ONTEM E HOJE NA BAIXADA DE JACAREPAGUÁ

Quilombo foi uma denominação dos colonizadores portugueses para designar os territórios de resistência que os escravos fugidos chamavam de mocambos ou cerca. Mesmo não durando por muito tempo,  é inquestionável a resistência dos ex-escravos africanos, os quilombolas, durante a colonização portuguesa. Para alguns pesquisadores, entre fins do século XIX e início do século XX alguns quilombos se transformaram em favela: outro espaço criminalizado, desta vez pelo Estado Republicano. E ao longo do século XX, muitas favelas se desenvolveram em Jacarepaguá, dentre elas, a comunidade do Alto Camorim. E na atualidade observamos o resgate desta herança de resistência dos povos afrodescendentes em Jacarepaguá.


Moradores do Alto Camorim e representantes da ACUCA concedem
depoimento sobre as lutas de resistência cultural da comunidade. Ao fundo a fachada da
Igreja São Gonçalo de Amarante, construída em 1625.
Desde 2004, há dez anos, moradores do Alto Camorim entraram com processo junto ao INCRA pleiteando o seu reconhecimento enquanto comunidade remanescente de quilombo. Além disso, foi pleiteado junto à Prefeitura um espaço para desenvolvimento de atividades para exercício da memória e da identidade cultural quilombola dos moradores da região. Uma das instituições a frente deste processo é a Associação Cultural do Camorim (ACUCA), instituição local que participou da organização do evento do último 23 de março.
 

Os moradores do Alto Camorim, que se reconhecem herdeiros da tradição quilombola em Jacarepaguá, possuem uma preocupação que é digna de registro: o avanço do mercado imobiliário na região. O bairro do Camorim é uma das regiões que mais cresce hoje em dia na cidade do Rio de Janeiro. Parte devido a quantidade de terras ainda sem edificações, o que evidencia na região a prática da valorização e da especulação fundiária; e parte devido ao fato de que a região vem recebendo melhorias na infraestrutura devido aos Jogos Olímpicos de 2016, o que resulta na procura por moradias, seja por operários em busca de trabalho; seja por uma classe média em busca de morar num "bairro verde", chamariz bastante utilizado pelas imobiliárias da região, como a RJZ Cyrella no empreendimento chamado Floris, que brota como erva daninha de dentro das florestas do Camorim.

Outro momento do evento cultural de resistência quilombola no Alto Camorim: atividade de
caminhada até o Núcleo Camorim do Parque Estadual da Pedra Branca. Durante o período colonial os escravos e
quilombolas foram responsáveis pela abertura de muitos caminhos pelas matas do Rio de Janeiro.
 

Assim, enquanto o pleito colocado pela ACUCA e demais moradores do Alto Camorim junto à Prefeitura, para ter no local um espaço para desenvolvimento de atividades de resgate da cultura e memória quilombola vem se arrastando há anos, por outro lado, a Prefeitura parece ter mais disposição em estender as mãos para as empresas do ramo imobiliário. Pois os moradores do Alto Camorim observam, cada vez mais, o avanço dos projetos imobiliários sobre áreas densas de floresta, que com o aval da Prefeitura através do PEU das Vargens, propõe redefinições e aumento do gabarito para as construções de imóveis na região.

E é aí que reside a importância da atividade realizada no dia 23/03 na comunidade do Alto Camorim: a denúncia desta prática perversa do poder público em relação aos que reivindicam a herança local da cultura afrodescendente e quilombola em Jacarepaguá e com isso, marcando uma posição política nitidamente de resistência. Fica evidente, assim como no caso de Vila Autódromo, que o peso político que grupos empresarias possuem sobre a direção das políticas públicas é bem maior do que o peso político dos trabalhadores e moradores de favelas.

Após a caminhada e chegar até o Núcleo do Camorim do Parque Estadual da Pedra Branca
os participantes do evento puderam conhecer a apreciar a queda d'água Véu da Noiva.
E o IHBAJA reconhece a importância do evento e da herança histórica da região do Camorim, que não está apenas presente no Patrimônio Material da região, como a Igrejinha do século XVII. Entendemos que o Patrimônio Histórico e Cultural de um povo está também na cultura imaterial, nas tradições, nos costumes e práticas culturais e sociais dos trabalhadores e no cotidiano dos moradores mais simples. E em Jacarepaguá, a herança dos povos afrodescendentes está presente naqueles que reconhecem e reivindicam a tradição e a identidade culturais quilombola na região.


Texto: Renato Dória - Instituto Histórico da Baixada de Jacarepaguá

Fotos: Aparecida Mercês
 
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